terça-feira, 14 de setembro de 2010

Papangus de Bezerros



A tradição do papangu em Bezerros surgiu no início do século passado, com um grupo de amigos que, usando máscaras de pano, passavam de casa em casa para comer e beber sem ser reconhecidos. O nome teria surgido em referência ao alimento oferecido a eles, o angu, um mingau feito de milho. Segundo contam os moradores mais antigos de Bezerros, a brincadeira começou quando alguns homens quiseram brincar o carnaval sem serem reconhecidos, para despistar a atenção de suas esposas. A brincadeira foi pegando e a cada ano aumenta o número de mascarados nas ruas.

Durante o desfile pela cidade, os papangus bebem e comem angu de milho, uma comida típica da região. Devido ao exagero no apetite de alguns foliões, originou-se o nome da festa: Papangu. A principal regra desta importante tradição carnavalesca é manter o sigilo sobre as máscaras que serão usadas, para que ninguém venha a ser reconhecido.

Os primeiros Papangus que se tem notícia surgiram na década de 30. Eles eram chamados de Papangus Pobres porque trajavam roupas velhas, rasgadas com remendos, meias nas mãos, máscaras rústicas confeccionadas com papel jornal e goma. A história foi mudando e a partir dos anos 60, as roupas velhas foram substituídas por caftas - batas longas e estampadas. Porém a máscara continuava sendo fabricada com os produtos originais: papel jornal e goma. Outro ponto foi mantido: trocavam de roupa em lugares desconhecidos e continuavam a "visita" aos amigos. A consolidação da tradição veio em 1990 quando Bezerros surgiu no cenário nacional e ficou conhecida como a Terra do Papangu.

No domingo de carnaval acontece o grande concurso de papangu, que vai escolher os melhores mascarados nas categorias individual, grupo, dupla e tradicional. Cerca de três mil papangus participam da disputa. Para brincar, é imprescindível que se tenha uma máscara. Fabricadas por artesãos locais, elas são verdadeiras obras de arte. São produzidas em diversos tamanhos e com várias finalidades: adorno para o carnaval, objetos de paredes e ainda como chaveiro. As mais sofisticadas são confeccionadas com gesso. Hoje, a tradição é passada de pai para filho. São mais de trinta oficinas de máscaras espalhadas pela cidade.

Caboclo de lança

O caboclo de lança é uma figura folclórica do estado de Pernambuco, atrelada às manifestações culturais do carnaval e do Maracatu Rural. É por muitos considerado um dos símbolos da cultura pernambucana, também conhecido como lanceiro africano, caboclo de guiada ou guerreiro de Ogum, que traz consigo um certo mistério.

Sua origem é resultado de uma mistura de culturas afro-indígenas com outras manifestações populares, como Bumba-meu-boi, Caboclinhos, Cavalo-marinho, Folia de Reis, manifestações essas existentes em Pernambuco.

Símbolos do carnaval de Pernambuco, o caboclo de lança é encontrado em várias cidades, principalmente na Zona da Mata, mormente em Nazaré da Mata. Também se encontra nas cidades de Igarassu, Buenos Aires, Tracunhaém, Carpina, Chã de Alegria, Lagoa do Itaenga, Feira Nova, Araçoiaba, Paudalho, Camaragibe e São Lourenço da Mata.

o caboclo de lança, que é o personagem mais conhecido do maracatu rural. Ele representa a figura do guerreiro de ogum e sua indumentária. A fantasia chega a pesar 25 quilos.

Com suas lanças de mais de dois metros de comprimento, feitas de madeira com uma ponta fina e uma enorme cabeleira de papel celofane cobrindo o chapéu-de-palha, o rosto tingido de urucum, camisas e calças de chitão, o Caboclo de lança tem o destaque de sua indumentária na gola bordada e no surrão - uma espécie de bolsa, confeccionada em couro de carneiro - onde são presos chocalhos, sendo colocado na altura das nádegas, daí também chamar-se estas figuras de Bunda-alegre e Bunda-de-guiso, provocando um barulho forte e primitivo quando da evolução dos caboclos de lança.

Ritual

O caboclo de lança obedece a um ritual antes de sua apresentação, e toda sua vestimenta tem uma explicação, uma razão de ser.

Há uma cerimônia em terreiros, com a bênção da lança e da flor que carrega na boca, além da consagração da calunga. Os homens cumprem uma abstinência sexual alguns dias antes da apresentação.

Vestimenta

Chapéu - Antigamente feito de papelão, atualmente usam um chapéu de palha, ornado com fitas multicoloridas, com a predominância da cor representativa de seu guia espiritual (oxum).

Lenço - Um lenço colorido é colocado amarrado ao pescoço. A face é geralmente pintada de vermelho, com urucum.

•Gola - Coberta de lantejoulas, cobre os ombros, o peito e as costas. Juntamente com o chapéu, é quem dá destaque à fantasia.

Fofa - Calça frouxa com franjas.

Surrão - Amarração de chocalhos, às costas, com um número variável deles à altura das nádegas.

Lança - Também chamada Guiada. Tem dois metros de comprimento, feita em madeira, toda coberta com fitas multicoloridas

•Óculos escuros.

•Cravo branco preso nos lábios.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Lia de Itamaracá por Hermínio Bello de Carvalho

Essa ciranda quem me deu foi Lia
Que mora na Ilha de Itamaracá
(Teca Calazans)


Enquanto Lia não vem, é Dona Creusa que vai desfiando histórias. É a proprietária do "Sargaço" que comprou em 1973, ali no Jaguaribe. Trabalha com frutos do mar em geral: peixada, lagosta, filé de agulha, ostra, marisco, camarão. E tem sururu, pirão de guaiamum, e, é claro, cerveja bem geladinha — indispensável quando o sol castiga fone a ilha de Itamaracá. Não, não ganha muito dinheiro não. Agora mesmo, veja só, o bar só tem vocês aqui. Vocês, eu, o Dr. Bernardo, diretor do Manicômio, e o Gilberto Marques Paulo — Secretário de Justiça e, nas horas vagas, tocador de violão e seresteiro. E mais o Juca, filho de José Lopes — ex-prefeito da ilha. Gilberto acaba de me fazer visitar a Casa Grande do Presídio. Estranho aqueles homens todos morando em mil e setecentos hectares de terra, cada um com sua família em casas bem feitinhas, plantando as verduras que comem, andando livres pela Ilha. É um trabalho de humanização que vem aplicando às penitenciárias, tarefa na qual se engajou Célia, sua mulher. Ela cuida dos menores, antes que cheguem à delinqüência. Pergunto se eles não fogem, tão fácil é o caminho da fuga. Nos dias de hoje, com moradia e comida garantida para si e a família — para que se evadir? Não me dou ainda por satisfeito, vou aqui e ali conversando com alguns presidiários. Visito a Casa da Farinha, vejo-a em pleno funcionamento. Vasculho as estradas, puxo conversa e me lembro de um tempo em que tinha. um programa de violão e poesia que era transmitido de uma rádio instalada na Frei Caneca. Vivaldi e Fernando Pessoa eram de vez em quando entrecortados por gritos pavorosos, a pancadaria comendo solta no meio da noite. Um dia contarei essa história, passada nos idos de cinqüenta.

"Lia já vem". Teca Calazans costumava passar uns tempos na Ilha e ia às cirandas de Dona Duda, no Janga — subúrbio de Olinda. E me parece que foi por lá que conheceu a Lia. Ouviu-lhe as cirandas, anotou algumas, e ainda compôs outra que ficou famosa em todo o Brasil, cantada pelo Quinteto Violado: "Essa ciranda quem me deu foi Lia/ Que mora na Ilha de Itamaracá". E ai a cirandeira virou símbolo da ilha, parte integrante de seu folclore. E vem ela chegando.

Bonita. essa Lia! Enorme mulher de metro e oitenta. Os cabelos desarrumados, blusa florida e calça jeans, pés gigantescos em sandália de couro cru. Não está nada à vontade, devemos ser mais alguns daqueles forasteiros que vêm para lhe tirar fotografias, posar ao lado se possível com um sorriso que por enquanto economiza, como também raciona as palavras. Mais mimetiza do que fala. Dona Creusa parece um pouco a Neuma da Mangueira, bonita como ela. Cabelos brancos, manda renovar a cerveja e a cachaça, os filés de agulha. Queixa-se do preço do camarão, diz que todo ano tem Festival de Cirandas, mas que a vontade dela é botar ali em freme do bar uma espécie de palco cheio de luz. Para que Lia cante e cirandeie. No espaço que tinha, ergueram um barraco inútil que só atrapalhou a vida do bar. "E vive de que a Lia?" Da profissão de merendeira escolar. empregada do Estado. "Ganho salário". Quer dizer: esse mísero salário mínimo, que é uma vigésima parte do preço de uma diária das suítes presidenciais que nós pagamos para nossa primeira-dama desfilar seu eterno sorriso, coisa aliás muito rara no rosto de Lia, a de Itamaracá.

As cirandas são famosas: além do canto de Lia, existem os músicos que a acompanham: um surdo, pistom. tarol e ganzá. Às vezes, ao invés do pistom, um saxofone. Disco já gravou sim, na Rozenblit — isso em 1977. Diz que não viu a cor do dinheiro. Vai lá dentro do bar e traz a capa: Lia bonita. sorridente, florida. Cheirosa. Lamenta que lhe roubem as músicas que faz, mas o que se há de fazer? Direito autoral, direitos conexos — são coisas de que ela não ouviu falar, sabe apenas que a música a empobrece mais ainda. Pergunto se ela não quer participar do disco do Capiba, diz que vai sim e não tenho muito por que acreditar. Promessas deve receber a toda hora, nota-se isso no olhar entristecido que quase nunca se fixa no interlocutor, vagueia para um lado para outro, como se buscasse na linha do horizonte as palavras de seu fraseado curto, quase monocórdio. E como é que é na hora da ciranda. hein Lia? “E cachorro amarrado, pau comendo!" Ai desamarra a boca, solta-se um pouco mais, parece que vejo os seios bufarem quando fala em ciranda. E começa cantar uma que Capiba lhe fez de presente: "Minha ciranda não é minha só/ é de todos nós!/ a melodia principal quem tira/ é a primeira voz/ pra se dançar cirandada/ juntamos mão com mão/ formando uma roda / cantando uma canção". Combino quase tudo: o dinheirinho que vai ganhar. ela fala dos músicos que precisa arregimentar. Vem mais uma rodada de pinga e mais peixe-agulha. Lia vai buscar seu Bezerra, do saxofone; e Marcelo do ganzá, Genuário do tarol, do surdo: precisa deles para a gravação.

A Ilha de Itamaracá começa a se parecer um pouco com a da Jipóia ou Jibóia, como queiram: lá de Angra dos Reis. Não a de agora, que nem mais a quero conhecer. Mas a dos tempos de meu avô Gregório que não conheci, e que era tido como o melhor violeiro do Estado do Rio. A velha Florinda, sua mulher, vinha trazendo aviso:"Lá na ilha Grande tem um violeiro que anda prosando que é melhor do que você. Se aprepare”. Ele ia temperar (afinar) a viola. ela fazer o farnel. Desciam os dois, ela pegava o remo e ele só temperando, temperando. E que só voltasse vencedor. Essa herança de violeiro passou para os filhos, pegou de raspão num neto que ainda chegou a dedilhar uns clássicos e largou tudo pela poesia, mas agora ressurgiu num bisneto que está firme em Leo Brouwer, Villa-Lobos, Torroba. Lembro meu sobrinho Saulo, fico orgulhoso de meu avô Gregório e largo meus devaneios porque é hora de voltar ao mundo.

Claro que deveria explicar o que estou fazendo aqui em Recife: um disco para Capiba, história que já comecei a contar há duas semanas passadas e correu firme pelo Recife inteiro: todo o mundo de Pasquim na mão. Cansaço, emoção: e lá vou eu parar na Unicordis, outra crise de hipertensão — eu ali domesticado na sala branca, monitorizado para um eletro que vai apontar a polirritmia dos batimentos cardíacos, o coração já em compasso de frevo dedilhado peja "Valsa verde" de Capiba, pelo choro que Jacaré fez em minha homenagem, mas também pelos aborrecimentos todos que cercam a vida de um fazedor de cultura, de um brasileiro irremediável e que anda chorando à toa pelos cantos da vida — a serenidade escoando aos poucos, a tensão desses dias ameaçadores provocando a hipertensão — e ainda mais agora essa tal de Lia de Itamaracá, ora vejam só.

Lia chega ao estúdio: seu Bezerra se perdeu no caminho, daqui a pouco chegará. Os meninos da "Casa do Guia Mirim" de Olinda estão por aqui, para deitar recitação no disco de Capiba. E uma ciranda come solta no estúdio três por quatro da Somax. Lia cirandeira de Itamaracá ,toda sorridente e festeira, primeira-dama destituída de outros privilégios que não seu próprio talento de mulher do povo, assalariada com um mínimo que não lhe roubou ainda toda a alegria.

Estranha música, essa de seu povo! As cirandas pernambucanas de Lia estão na boca de toda a gente, na alegria das pessoas se dando as mãos. cirandando em volta dela. E na verdade essa mulher de quarenta anos, meiga às vezes e justamente desconfiada quase sempre, e para muitos apenas uma dessas peças de artesanato urdidas em barro e que vão ornamentar uma estante — até que se espatifem e ganham o caminho da lixeira. Pegaram o disco de Lia e o trataram como se fosse de barro. Nem ela tem um só, até porque nem escutaria: vitrola é coisa que deve existir em sua vida de merendeira escolar. Volta e meia um turista de ar dementado virá tirar-lhe uma foto e nisso eu fico toda hora me lembrando de meu querido Camafeu de Oxossi, toda hora requisitado no extinto Mercado Modelo para exibir o sorriso, o chapéu imenso, a fama de melhor sabedor da Bahia, elogio que lhe pespegou o Jorge Amado.

Deixo Lia à porta do estúdio. Parece até que está feliz. Por pouquinho deixa de cruzar com Mestre Capiba, que vem cheio de guizos no rosto, a felicidade lhe tomando a alma.

Vai com Deus, Lia! toma conta dele direitinho.



Hermínio Bello de Carvalho nasceu no dia 28/03/1935, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Poeta, escritor, compositor e produtor musical, tem toda sua vida dedicada à música, com parceiros como Pixinguinha, Radamés Gnattali, Paulinho da Viola, Ivone Lara, Cartola, Chico Buarque, Baden Powell, Élton Medeiros, Rildo Hora, Sueli Castro, Francis Hime,Cacaso e muitos mais. Na área de shows, foi o criador de "Rosa de Ouro", "Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, Zimbo Trio e o Época de Ouro", "Caymmi em Concerto", "Chico Buarque da Mangueira", entre outros. Tem 13 livros publicados, dos quais citamos "Poemas do amor maldito", "Mudando de conversa", "Cartas cariocas para Mário de Andrade", "Contradigo" e "Sessão Passatempo".

Texto extraído de plaqueta em homenagem prestada por João Antônio Buehrer Almeida — e seus arquivos incríveis, aos 70 anos de Hermínio Bello de Carvalho. Publicado no jornal “Pasquim” nº 796, edição de 27/09/1984 a 03/10/1984, Rio de Janeiro (RJ).

MESTRE SALUSTIANO


Manoel Salustiano Soares, conhecido como Mestre Salustiano ou Mestre Salu nasceu em Aliança, zona da mata norte de Pernambuco, no dia 12 de novembro de 1945.

Seu pai, João Salustiano, era um tocador de rabeca e foi quem o ensinou a fazer e a usar o instrumento. Mestre Salu usa praíba, imburana, pinho, mulungu e cardeiro para fazer suas rabecas, pois segundo ele são as melhores madeiras para produzir o som.

Durante a infância participou de brincadeiras e folguedos populares existentes nos engenhos de Aliança. Sua grande paixão é o cavalo-marinho, que apesar de utilizar alguns personagens, músicas e coreografias comuns ao bumba-meu-boi, tem características próprias.

Foi um dos maiores dançadores de cavalo-marinho da região, interpretando diversos personagens: arrelequim, dama, galante, contador de toada, Mateus (durante nove anos), recebendo por isso o título de mestre. É considerado um dos grandes nomes do maracatu em Pernambuco, uma das maiores autoridades em cultura popular no Estado e o precursor ou “patrono espritual” do manguebeat.

Fundou o Maracatu Piaba de Ouro, em 1997, tendo participado com o grupo do festival de Cultura Caribeña, em Cuba. É o comandante do cavalo-marinho Boi Matuto, que criou em 1968, e do Mamulengo Alegre.

Mestre Salustiano também é um artesão. Além das rabecas é ele quem confecciona os bichos do bumba-meu-boi, cavalo, boi, burra; as máscaras do cavalo-marinho, feitas de couro de bode ou de boi e os mamulengos de mulungu.

É um dos grandes responsáveis pela preservação da ciranda, do pastoril, do coco, do maracatu, do caboclinho, do mamulengo, do forró, do improviso da viola e de outros folguedos populares do folclore nordestino.

Atualmente na Casa da Rabeca do Brasil, situada na Cidade Tabajara, em Olinda, espaço inaugurado recentemente pela família para apresentações de danças, oficinas, encontros de maracatus rurais e cavalo-marinho, além de shows de música regional, acontecem eventos o ano inteiro. Anteriormente, as apresentações eram organizadas por ele no Iluminara Zumbi,arena idealizada por Ariano Suassuna, durante sua gestão como secretário de cultura.

O espaço possui um grande terreiro para as diversas apresentações, bar, salão de danças e uma loja, onde são comercializados produtos de confecção própria, como rabecas, alfaias, pandeiro, mamulengos, além de peças do artesanato de barro de Caruaru.

Na época do carnaval, a Casa recebe caboclinhos, bois, burras, troças, ursos, além do seu maracatu Piaba de Ouro. No Natal, é palco para pastoril, ciranda, cavalo-marinho, entre os quais o Boi Matuto, com a participação de 76 figurantes e 18 pessoas brincando.

Foi agraciado com o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1965, e já percorreu com a sua arte a maioria dos estados brasileiros e países como a Bolívia, Cuba, França e Estados Unidos.

Recebeu ainda, em 1990, o título de “reconhecido saber” concedido pelo Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco e o de comendador da Ordem do Mérito Cultural, em 2001, pelo então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.

Tem quatro CDs gravados: Sonho da Rabeca, As três gerações, Cavalo-marinho, Mestre Salu e a sua rabeca encantada.

Mistura de músico, produtor, artesão e professor, Mestre Salu segue fazendo turnês nacionais e internacionais, tocando sua rabeca e mostrando sua peculiar fusão de ritmos do folclore nordestino.

Indicado pela Prefeitura de Olinda, foi escolhido pelo Governo do Estado, através da Lei nº 12.196 de 2 de maio de 2002, como Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Mestre Salustiano faleceu aos 62 anos, na cidade do Recife, no dia 31 de agosto de 2008.

domingo, 12 de setembro de 2010

sábado, 11 de setembro de 2010

Intercambio Cultural em Tracunhaém

Uma banda ensaiando para 07 de setembro e isto é muito legal. A Praça do Caboclo, os homens de barro na roda, os filhos de Baé, que são bamba no coco e Mano de Baé além da música, segue a tradição do Pai que era artesão, e ainda é ator e poeta.

Ivan da Maracabarro que preserva também a tradição do maracatu, Cobra Cordelista de Jaboatão dos Guararapes, com a arte do Cordel e da poesia e Boy do Violão de Olinda cantando muito Reggae e relembrando Alceu Valença. Foi bom demais o povo ficou feliz com nossa amostra de cultura.

Outro dia a gente repete!










Entrevista de Cobra Cordelista na rádio Pedra Solta (F.M) de Tapetim no sertão do estado e canta a música Nordeste Independente

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Tracunhaém da multiculturalidade!

O primeiro é Gil Negão, o cara nasceu com a poesia no coração, tem essência. A sambada de Maracatu é a sua vida e no dia que esta cidade resolver investir forte nesta cultura, agente vai ver Gil Negão feliz, no meio da praça. Toda sexta e sábado, cantado e dançando maracatu, de noite ou de dia, e a cidade cheia de turistas, para aplaudir a cultura desta cidade. O sangue negro, e o grito das Senzalas, ainda ecoam em nossos ouvidos em Tarcunhaém. O negro livre quer libertar seu canto ainda preso, para cantar a sua liberdade.

Tracunhaém tem sete maracatus: O pavão misterioso, O águia misteriosa, Maracatu Estrela, Leão de Ouro, Leão Formoso, Estrela da Serra e Leão misterioso, todos em atividades, e Tracunhaém com todas as condições de ser o segundo pólo dos maracatus em Pernambuco. Porém já foi o primeiro, e esta tradição foi assumida com méritos por Nazaré da Mata, e o povo da região ouvi de muitos agradecimentos a dona Marta de Nazaré da mata, mas que governou Tracunhaém, e a Jaime Correia que já foi prefeito de Nazaré da Mata e hoje é chefe de gabinete do prefeito Elias Gomes de Jaboatão dos Guararapes.

Logos após na foto Biu compositor, um mestre da poesia da composição um talento que merece respeito e admiração. A capacidade deste jovem de criar, declamar e cantar, é muito grande. Tem muito artista fazendo sucesso que nunca compôs uma letra, tem gente fazendo sucesso que não canta nada, é só efeito de estúdio! Mas Biu é especial, e me sinto honrado em viajar muitas cidades, fotografando, filmando e entrevistando artistas da qualidade de Biu compositor. Digo isto por que talvez quem acessa este blog, nunca verá Biu compositor de Tracunhaém, ou Delmiro Barros de São José do Egito, ou José Adalberto de Itapetim, são artista de muita qualidade, e totalmente enraizados na cultura local, que nunca aventuram-se em terras estranhas, mas que fazem um sucesso tremendo em sua região. Tem que ir lá para vê-los.

Meu amigo Ivan do Maracabarro que eu fotografei na Serra do Trapuá, lado do seu sobrinho Rafael. A Serra do Trapuá era a flor do desejo de João Cabral de Melo Neto, onde desejou ser enterrado, na ocasião de sua morte. Gostaria de ter visto a igreja, mas esta impedida de ser visitada. Creio que a Prefeita Cleide Lapa em breve abrirá a igreja para visitação e agente vai lá fotografar.

Ivan é cultura viva, é um jovem cheio de idéias e de esperanças, que luta todos os dias como um batalhador incansável pela cultura, e que de todos os aficionado pela cultura ganhou respeito, inclusive deste caixeiro viajante da poesia, que admira e colabora para o sucesso de pessoas feito Ivan, comprometidas com a cultura popular.










O artesanato de Tracunhaém, memória viva da cultura de Pernambuco!


Eu Conversei com a artesã Nalva, que o povo de Tracunhaém chama de Nau, filha de Inácia já falecida, que também era artesã. Nalva trabalha a arte dos Jardins, as plantas e o artesanato. Ela faz Macramê, estamparia, Pintura e Crochê. O telefone para contato com Nalva (81) 9781.9172, porém se chamar e não atender, insista, pois ela tem pouca intimidade com as novas tecnologias e esquece o telefone, ou de recarregar a bateria, mas seu filho a está ajudando nesta tarefa, e está comprando um notebook para fazer um site, e divulgar a arte da mãe.

O esposo de Nalva muitas vezes é quem atende o telefone, e conversa com os clientes dela, antes era no seu próprio telefone, mas agora convenceu Nalva a usar um celular. As fotos seguintes são do ateliê de Dinho de Zezinho de Tracunhaém, ele não estava presente e por isso não pudemos conversar.

Tracunhaém tem artesãos que são memória da cultura Pernambucana, uma menção honrosa, criada quando era governador de Pernambuco o Sr. Jarbas Vasconcelos, hoje Senador da República, e foram reconhecidos com este mérito em Tracunhaém e recebem uma ajuda financeira significativa um reconhecimento do estado, o artesão Zezinho de Tracunhaém, que trabalha a arte sacra, Maria Amélia que trabalha as Dondocas e Nuca que trabalham os Leões, e assim Tracunhaém deu três filhos imortais para a cultura deste país. Eita cidade arretada!











Peleja de Pinto com Milanês


Pinto de Monteiro
Severino Milanês da Silva


Milanês estava cantando
em vitória de Santo Antão
chegou Severino Pinto
nessa mesma ocasião
em casa de um marchante
travaram uma discussão.


M - Pinto, você veio aqui

se acabar no desespero

eu quero cortar-lhe a crista

desmantelar seu poleiro

aonde tem galo velho

pinto não canta em terreiro


P - mas comigo é diferente

eu sou um pinto graúdo

arranco esporão de galo

ele corre e fica mudo

deixa as galinhas sem dono

eu tomo conta de tudo


M - Para um pinto é bastante

um banho de água quente

um gavião na cabeça

uma raposa na frente

um maracajá atrás

não há pinto que agüente


P - Da raposa eu tiro o couro

de mim não se aproxima

o maracajá se esconde

o gavião desanima

do dono faço poleiro

durmo, canto e choco em cima.


M - Pinto, cantador de fora

aqui não terá partido

tem que ser obediente

cortês e bem resumido

ou rende-me obediência

ou então é destruído


P - Meu passeio nesta terra

foi acabar sua fama

derribar a sua casa

quebrar-lhe as varas da cama

deixar os cacos na rua

você dormindo na lama


M - Quando vier se confesse

deixe em casa uma quantia

encomende o ataúde

e avise a feguezia

que é para ouvir a sua

missa do sétimo dia


P - Ainda eu estando doente

com uma asa quebrada

o bico todo rombudo

e a titela pelada

aonde eu estiver cantando

você não torna chegada


M - O pinto que eu pegar

pélo logo e não prometo

vindo grande sai pequeno

chegando branco sai preto

sendo de aço eu envergo

sendo de ferro eu derreto


P - No dia que eu tenho raiva

o vento sente um cansaço

o dia perde a beleza

a lua perde o espaço

o sol transforma-se em gelo

cai de pedaço em pedaço


M - No dia que dou um grito

estremece o ocidente

o globo fica parado

o fruto não dá semente

a terra foge do eixo

o sol deixa de ser quente


P - Eu sou um pinto de raça

o bico é como marreta

onde bate quebra osso

sai felpa que dá palheta

abre buraco na carne

que dá pra fazer gaveta


M - Eu pego um pinto de raça

e amolo uma faquinha

faço um trabalho com ele

depois pesponto com linha

ele vivendo cem anos

não vai perto de galinha


P - Milanês, você comigo .

desaparece ligeiro

eu chego lá tiro raça

me aposso do poleiro

e você dorme no mato

sem poder vir no terreiro


M - Pinto, agora nós vamos

cantar em literatura

eu quero experimentá-lo

hoje aqui em toda altura

você pode ganhar esta

porém com grande amargura


P - pergunte o que tem vontade

não desespere da fé

do oceano, rio e golfo

estreito, lago ou maré

hoje você vai saber

pinto cantando quem é


M - Pinto, você me responda

de pensamento profundo

sem titubear na fala

num minuto ou num segundo

se leu me diga qual foi

a primeira invenção do mundo


P - Respondo porque conheço

vou dar-lhe minha notícia

foi o quadrante solar

pelo povo da Fenícia

os babilônios também

gozaram a mesma delícia


M - Como você respondeu-me

não merece disciplina

hoje aqui não há padrinho

que revogue a sua sina

se você souber me diga

quem inventou a vacina?


P - Não pense que com pergunta

enrasca a mim, Milanês

foi a vacina inventada

no ano noventa e seis

quem estuda bem conhece

que foi Jener Escocês


M - Sua resposta foi boa

de vocação verdadeira

mas queira Deus o colega

suba agora essa ladeira

me diga quem inventou

o relógio de algibeira?


P - No ano mil e quinhentos

Pedro Hélio com façanha

em Nuremberg inventou

essa obra tão estranha

cidade da Baviera

que pertence a Alemanha


M - Pinto, cantando não gosto

de amigo nem camarada

se conhece a história

Roma onde foi fundada?

o nome do fundador

e a data comemorada?





P - Em l7 e 53

antes de Cristo chegar

nas margens do Rio Tibre

isso eu posso lhe provar

Rômulo ali fundou Roma

a 15 milhas do mar





M - Pinto, eu na poesia

quero mostrar-lhe quem sou

relativo o avião

perguntando ainda vou

diga o primeiro balão

quem foi que inventou?





P - Em mil seiscentos e nove

Bartolomeu de Gusmão

no dia oito de agosto

fez o primeiro balão

hoje no mundo moderno

chama-se o mesmo avião





M - Pinto estou satisfeito

já de você eu não zombo

mas não pense que com isto

atira terra no lombo

disponha de Milanês

pra ver se ele agüenta o tombo





P - Milanês, você comigo

ou canta ou perde o valor

você me responda agora

seja que de forma for

de quem foi a invenção

do primeiro barco a vapor?





M - Eu quero lhe explicar

digo não muito ruim

a 16 a 87

você não desmente a mim

o inventor desse barco

foi o sábio Diniz Papim





P - Em que ano inaugurou-se

da Europa ao Brasil

a linha pra esse barco

a vapor e mercantil?

Se não souber dê o fora

vá soprar em um funil





M - Foi um navio inglês

que levantou a bandeira

em 18 a 51

veio a terra brasileira

sendo a nove de janeiro

fez a viagem primeira





P - E qual foi a 1a guerra

feita a barco a vapor?

Você ou diz ou apanha

da surra muda de cor

quebra a viola e deserta

nunca mais é cantador





M - Em l8 e 65

a esquadra brasileira

dentro do Riachuelo

içou a sua bandeira

na guerra do Paraguai

foi a batalha primeira





P - Milanês, você comigo

ou canta muito ou emperra

não pode se defender

salta, pula, chora e berra

qual foi a primeira estrada

de ferro, na nossa terra?





M - Foi quando Pedro II

tinha aqui poderes mil

em 18 e 54

no dia trinta de abril

inaugurou-se em Mauá

a primeira do Brasil





P - Milanês, você é fraco

não agüenta o desafio

eu ainda estou zombando

porque estou de sangue frio

me diga quem inventou

o telégrafo sem fio?





M - Pinto, você não pense

que meu barco vai a pique

em mil seiscentos e oito

na cidade de Munique

Suemering inventou

este aparelho tão chique





P - Eu já vi que Milanês

não responde cousa à toa

se ainda quiser cantar

hoje um de nós desacoa

puxe por mim que vai ver

um pinto de raça boa





M - Pinto, o seu pensamento

pra todo lado manobra

mas eu não conheço medo

barulho pra mim não sobra

é fogo queimando fogo

é cobra engolindo cobra





P - Do pessoal do salão

levantou-se um cavalheiro

dizendo: quero que cantem

pelo seguinte roteiro

Milanês pergunta a Pinto

como passa sem dinheiro





M - Oh! Pinto, você precisa

dum palitó jaquetão

uma manta, um cinturão

uma calça, uma camisa

está de algibeira lisa

não encontra um cavalheiro

que forneça ao companheiro

pra fazer-lhe um beneficio

olhe aí o precipício

como compra sem dinheiro?





P - Eu recomendo a mulher

que compre na prestação

um palitó jaquetão

a camisa se tiver

quando o cobrador vier

ela esteja no terreiro

eu fico no fogareiro

pelo oitão vou furando

ele ali fica esperando

assim compro sem dinheiro





M - Você em uma cidade

precisa de refeição

porém não tem um tostão

que mate a necessidade

ali não há caridade

na casa do hoteleiro

só encontra desespero

fala e ninguém lhe atende

fiado ninguém lhe vende

como come sem dinheiro?





P - Eu levo um carrapato

guardado dentro do bolso

vou no hotel peço almoço

no fim boto ele no prato

faço logo um desacato

chamo o garçon ligeiro

ele me diz: cavalheiro

cale a boca, vá embora;

saio por ali a fora

assim como sem dinheiro





M - Você precisa casas

para ser pai de família

precisa roupa e mobília

cama para se deitar

você não pode comprar

cadeira nem petisqueiro

atoalhado estrangeiro

mesa para refeição

você não tem um tostão

como casa sem dinheiro?





P - Se a moça amar-me enfim

me tendo amor e firmeza

não especula riqueza

nem diz que eu sou ruim

ela ontem disse a mim:

eu quero é um cavalheiro

e você é o primeiro

para ser meu defensor

quero é gozar teu amor

e assim caso sem dinheiro





M - Você depois de casado

sua esposa cai doente

você não tem um parente

que lhe empreste 1 cruzado

ver seu anjo idolatrado

gemendo sem paradeiro

olhe aí o desespero

na porta do camarada

só ver pobreza e mais nada

como cura sem dinheiro?





P - Eu boto-a nos hospitais

do governo do estado

pra quem está necessitado

aquilo serve demais

as irmãs especiais

chamam logo o enfermeiro:

— Vamos com isto ligeiro

tratam com mais brevidade;

se interna na caridade

assim curo sem dinheiro





M - Oh! Pinto, camaradinha

você precisa ir à feira

para comprar macaxeira

arroz, batata e farinha

bacalhau, charque e sardinha

tomate, vinho e tempero

gás, açúcar e candeeiro

biscoito, chá, macarrão

bolacha, manteiga e pão

Como compra sem dinheiro?





P - Eu dou um jeito no pé

envergo um dedo da mão

um dali dá-me um pão

outro dá-me um café

à tarde vou à maré

espero ali o peixeiro

ele é hospitaleiro

humanitário e carola

dá-me um peixe por esmola

e assim como sem dinheiro





Com este verso do Pinto

encheu de riso o salão

houve uma recepção

naquele nobre recinto

ergueu-se um rapaz distinto

com frase meiga e bela

disse: mudem de tabela

pra uma idéia mais grata:

nem a polícia me empata

de chorar na cova dela





P - Eu tive uma namorada

bonita igual Madalena

parecia uma verbena

pela manhã orvalhada

a morte tomou chegada

matou a minha donzela

quando sepultaram ela

quase a tristeza me mata

nem a polícia me empata

eu chorar na cova dela





M - Eu amei uma criatura

ela o coração me deu

na minha ausência morreu

eu sofri muita amargura

fui à sua sepultura

para abraçar-me com ela

ainda via a capela

toda bordada de prata

nem a polícia me empata

eu chorar na cova dela





M - Um dia um amigo meu,

disse com toda bravura

deixe de sua loucura

se esqueça de quem morreu

uma desapareceu

Procure outra donzela;

eu disse: igualmente aquela

não existe nesta data

nem a polícia me empata

eu chorar na cova dela





P - Desperto de madrugada

o sono desaparece

me levanto e faço prece

na cova de minha amada

volto pela mesma estrada

com o pensamento nela

quando eu não avisto ela

vou dormir dentro da mata

nem a polícia me empata

eu chorar na cova dela





Caros apreciadores

qualquer que analisou

nem Pinto saiu vaiado

nem Milanês apanhou

vamos esperar por outra

que esta aqui terminou



- FIM -