sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O Maculelê



Maculelê é um tipo de dança, bailado, que se exibe na bahia, na cidade de Santo Amaro, Bahia. Acredita-se ter evoluído do cucumbi (antigo folguedo de negros) até tornar-se um misto de dança luta e jogo de bastões, chamados grimas (esgrimas), com os quais os participantes desferem e aparam golpes. Num grau maior de dificuldade e ousadia, pode-se dançar com facões em lugar de bastões, o que dá um bonito efeito visual pelas faíscas que saem após cada golpe. O makulelê é uma dança em que envolve a batida dos bastões, sempre quando acaba cada frase da música. Esta dança se assemelha a muitas outras danças brasileiras como: capoeira, moçambique, e o frevo.

Conta-se que Maculelê era um negro fugido que tinha doença de pele. Ele foi acolhido por uma tribo indígena e cuidado por eles, mas ainda assim não podia realizar todas as atividades com o grupo, por não ser um índio também. Certa vez, Maculelê foi deixado sozinho na aldeia, quando a tribo saiu para caçar. E eis que uma tribo rival aparece para dominar o local. Maculelê lutou sozinho contra o grupo rival e, heroicamente, venceu a disputa. Desde então passou a ser considerado um herói na tribo.

Há uma variação deste conto, na qual o guerreiro Maculelê era um índio preguiçoso e que não fazia nada certo; por esta razão, os demais homens da tribo saíam em busca de alimento e deixavam-no na tribo com as mulheres, os idosos e as crianças. Para defender a sua tribo, o índio enfrenta e mata quase todos os invasores da tribo inimiga, morrendo nas mãos daqueles que ele não conseguiu vencer. Nesta versão, Maculelê usa dois bastões como armas, já que os demais índios da sua tribo haviam levado todas as armas para caçar. Sua morte foi vingada, e ele passou a ser o herói da tribo.

A dança com bastões simboliza a luta de Maculelê contra os guerreiros.

Foi Popó do Maculelê o responsável pela sua divulgação, formando um modesto grupo com seus filhos, netos e outros negros da Rua da Linha. Enquanto trabalhavam em canaviais, os negros cantavam músicas que evidenciavam o ódio. Mas eles cantavam na língua que eles trouxeram da África, para que os feitores não entendessem o sentido das palavras.

Onde irá parar esse estrangeirismo?

Comadre Fulozinha - mitos nordestinos



Histórias da guardiã da mata

Comadre Fulozinha, conforme nos ensina o mestre Câmara Cascudo, é um ente mitológico, uma fantástica e misteriosa mulher que vive na floresta, sempre pronta a defender animais e plantas contra as investidas dos predadores da natureza. É uma caboclinha que tem longos cabelos negros, que lhe cobrem o corpo.

Ela é caminhante, brincalhona e vive na Zona da Mata de Pernambuco. Consegue desaparecer sem deixar rastro e adora fazer tranças na cauda dos cavalos. Ela protege a caça contra os caçadores, desorientando-os com seus assobios e fazendo com que eles fiquem perdidos na mata. Adora receber presentes como mingau, confeitos e fumo.

Se ta difícil de acreditar, então veja esse depoimento de João Balado. Caboclo veio sertanejo, ele jura que já viu o Lobisomem e Comadre Fulosinha.

Uma história da Comadre Fulozinha

Zeza trabalha com a família há uns 30 e muitos anos. É nossa cozinheira e faz uns quitutes irresistíveis! Cozinha no fogão a lenha, faz canjica, cuscuz de massa, cocada, bode assado, guisado e um pão integral maravilhoso!

Enquanto ela fica cortando rabanete, nabo, picando alho-porró, cortando jambu, conta as histórias deste lugar. Estamos na área rural do município de Gravatá, uma área de transição entre Zona da Mata e Agreste. Neste brejo de altitude, ela nasceu e se criou e conta o que viu e ouviu desde pequena.

Perguntei-lhe sobre a Comadre Fulozinha e ela me disse que seu tio fez um pacto com a Comadre: todos os dias colocaria na mata um prato de barro cheio de mingau de massa de mandioca. Em troca, ela o “deixaria” caçar um animal dentro da mata. Mas somente um. Todos os dias ele mandava sua esposa fazer o mingau. Ela fazia sem questionar, mas ficava sempre um pouco desconfiada. Todos sabem que a Comadre não pode com pimenta. Nem pense em oferecer ou colocar na sua comida que ela fica muito brava!

Um dia, já cansada de fazer o tal mingau, a esposa decidiu colocar pimenta e entregou o prato ao marido sem dizer nada. Naquele mesmo dia, o caçador não encontrou sua caça e se perdeu na mata. De manhãzinha, chegando em casa, perguntou à esposa o que ela havia feito e soube o que ocorrera.

A mesma Zeza conta, ou melhor, perdeu a conta de quantas vezes teve que desatar as tranças das caudas dos cavalos que a tal Comadre Fulozinha fazia. Diz que era tão difícil desatar, chegava a criar calo na ponta dos dedos!

Caso conheça alguma história sobre Comadre Fulozinha, entre em contato ou deixe um comentário relatando.

Fonte:
www.comadrefulozinha.com.br

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Boiúna - A cobra gigante



A serpente está dentro do Homem, é o intestino. Ela tenta, trai e pune.” Vitor Hugo

Um dos mitos do Amazonas, que aparece sob diferentes feições. Ora como uma cobra preta, ora como uma cobra grande, de olhos luminosos como dois faróis. Os caboclos anunciam sua presença nos rios, lagos, igarapés e igapós com a mesma insistência que os marinheiros e pescadores da Europa acreditam no monstro de Loch-Ness.

A imaginação amazônica, mais floreada e portentosa, criou para o nosso mito propriedades fantásticas: a boiuna pode metamorfosear-se em embarcação de vapor ou vela e ir da forma de ofídio à navio, para mais trair e desorientar as suas vítimas. Esta cobra, possui diferentes formas encantatórias, conformes dados colhidos entre a população ribeirinha. Acreditam até, que alguns igarapés foram formados pela sua passagem que abre grandes sulcos nas restingas, igapós e em terra firme.

Na Amazônia, ela toma diversos nomes: Boiúna, Cobra Grande, Cobra Norato, Mãe D Água, entre outros, mas independentemente de seu nome, ela é a Rainha dos rios Amazônicos e suas lendas podem ter surgido em virtude do medo que provoca a serpente d água, que devora o gado que mata a sede na beira dos rios.

A Cobra-Grande ou a Boiuna, sobe os rios, entra nos igarapés, devassa os lagos, onde cantam a sua área de beijos os nenúfares opalizados pela luz do luar, transformada em majestoso, todo iluminado e fascinante, que atrai o caboclo extasiado pela sua irradiosa aparição.

Diz a lenda, que Waldemar Henrique, em verso e música traduziu, que uma vez por ano a Boiúna saía de seus domínios para escolher uma noiva entre as cunhãs da Amazônia. E, diante daquele enorme vulto prateado de luar que atravessava vertiginosamente o grande rio, os pajés rezavam, as redes tremiam, os curumins escondiam-se chorando, enquanto um imenso delírio de horror rebentava na mata iluminada...

"Credo! Cruz!
Lá vem a Cobra Grande
Lá vem Boiuna de prata...
A danada vem à beira do rio
E o vento grita alto no meio da mata!
Credo! Cruz!
Cunhatã ter esconde
Lá vem a Cobra Grande
á-á...
faz depressa uma oração
prá ela não te levar
á-á...

A floresta tremeu quando ela saiu,
Quem estava lá perto, de medo fugiu
e a Boiuna passou tão depressa,
Que somente um clarão foi que se viu...
A noiva cunhatã está dormindo medrosa,
Agarrada no punho da rede,
E o luar faz mortalha em cima dela,
Pela fresta quebrada da janela..
Eh! Cobra-Grande
Lá vai ela!..."

Em mitos e crenças antigas, era muito comum a afirmação de que as cobras buscavam as mulheres para engravidá-las e acreditava-se também, que a partir da primeira menstruação, as jovens índias virgens estavam particularmente sujeitas a atraírem "o amor de uma serpente", por este motivo, elas evitavam de irem ao mato ou a beira de um rio, quando menstruadas.

A Cobra Grande ou Boiuna é vista à noite, iluminando os remansos dos rios com a fosforescência dos seus olhos constantes. Transforma-se, muitas vezes, em um veleiro, que apresenta uma luz da vermelha à bombordo e outra verde à boreste. que confunde os incautos e desce silenciosamente a torrente dos igarapés. Aí daquele que se aproximar desta forma enganosa, pois estará sujeito a ser arrebatado às profundezas do rio, para nunca mais retornar.

Antonio Nóbrega - Ponteio Acutilado

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Folclore Infantil




Quem não conhece uma brincadeira, um versinho popular ou uma cantiga de roda? Pois saiba que as músicas, os brinquedos, as parlendas e os jogos fazem parte do rico folclore infantil brasileiro. Se você prestar atenção, vai perceber que o folclore também faz parte da sua vida.

1. Parlendas

Você sabe o que são parlendas? São versos infantis com rimas, criados para as mais diferentes finalidades, entre elas divertir, acalmar, ajudar a decorar números ou escolher quem deve iniciar uma brincadeira. Como variam bastante, cada pessoa pode conhecê-las de um modo diferente. Confira uma parlenda e veja se a que você conhece é parecida com essas!

"Um, dois, feijão-com-arroz.
Três, quatro, feijão no prato.
Cinco, seis, bolo inglês.
Sete, oito, comer biscoito.
Nove, dez, comer pastéis."

"Batatinha quando nasce
se esparrama pelo chão.
Menininha quando dorme
põe a mão no coração"
2. Coisas de assustar

As assombrações e os seres sobrenaturais não existem, mas muitas são as histórias que fazem parte da imaginação das pessoas. Elas são transmitidas de pai para filho e muito comuns em todo o Brasil.
MULA-SEM-CABEÇA

Segundo a lenda, a mula-sem-cabeça tem cascos afiados e pode dar coices que machucam bastante. Embora não tenha cabeça, ela pode relinchar. Dizem que toda mulher que faz algum mal se torna mula-sem-cabeça na noite de quinta para sexta-feira. Antigamente, dizia-se que essa transformação acontecia com mulher que namorasse um padre católico.

BICHO-PAPÃO
A lenda do bicho-papão diz que ele tem um corpo peludo e olhos vermelhos. Ele ficaria escondido para assustar crianças que não querem dormir.

LOBISOMEM O mito do lobisomem foi trazido ao Brasil pelos portugueses e diz que todo filho nascido depois de sete filhas se transforma em lobisomem. Essa transformação aconteceria sempre nas sextas-feiras de lua cheia, entre meia-noite e duas e meia da madrugada.
3. Lendas e Mitos

O folclore brasileiro é rico em lendas e personagens. Transmitida há várias gerações, essas histórias fascinam adultos e crianças. Conheça as principais.

CURUPIRA

Defensor das matas, segundo a lenda o curupira é um índio pequeno, que surge e desaparece de repente. Tem pés virados para trás e faz ruídos misteriosos, para confundir e assustar os caçadores e os agressores das matas.
BOITATÁ

Descrito como um touro com um olho no meio da testa, essa história diz que o boitatá protege as matas das pessoas que as incendeiam.

CAIPORA Pela lenda, a caipora tem o corpo coberto de pêlos e percorre as matas montada num porco selvagem, para proteger os animais que vivem na floresta.

IARA, MÃE-D'ÁGUA
Versão brasileira da lenda das sereias, Iara é a mãe-d'água. Ela vive no Rio Amazonas e, nas noites de lua cheia, fica em cima das pedras, penteando seus longos cabelos para atrair os jovens com quem deseja casar.

GRALHA-AZUL
Essa lenda paraense conta que, depois de ver um pinheiro sendo destruído, uma gralha ficou triste e subiu para o céu. De lá, ouviu uma voz dizendo que a partir de então ela teria a cor azul e seria responsável por plantar pinheiros na Terra.

SACI-PERERÊ
É o mais famoso personagem do folclore brasileiro. A história do saci-pererê conta que ele tem apenas uma perna, usa um gorro vermelho, vive fumando um cachimbo e aparece e desaparece quando quer. Sapeca por natureza, está sempre aprontando, além de assustar todas as pessoas que tentam destruir as florestas.

LENDA DA VITÓRIA RÉGIA
É uma história da região norte do Brasil, contada pelos índios daquela região sobre o surgimento de uma das mais belas flores aquáticas do mundo: a Vitória-Régia. Conta a lenda que uma jovem índia chamada Naiá queria conquistar o amor da Lua, que era para eles um homem guerreiro audacioso, belo e forte. Ela acreditava que a Lua (o guerreiro) iria transformá-la em estrela e assim corria todas as noites com os braços estendidos tentando alcançar a Lua, sem jamais conseguir. Certa noite, Naiá viu a Lua refletida nas águas de um rio e pensando ser o seu amado atendendo seus chamados, ela atirou-se no rio e nunca mais voltou. A Lua, com pena de tamanha tragédia, ao invés de transformá-la em uma estrela, acabou transformando-a em uma flor tão bela quanto imensa: a Vitória-Régia.

LENDA DA BRUXA NICÁCIA
É uma lenda do sertão nordestino, onde o regime irregular de chuva criou esse personagem. Conta a lenda que há muitos anos, no sítio das Limeiras, Sertão do Piauí, vivia uma bruxa chamada Nicácia. Ela era a sétima filha de um casal, e tinha que cumprir o triste destino de sugar o sangue de criancinhas na Quaresma. A bruxa vivia com a sua amiga coruja, numa cabana afastada de todos. Quando ela sumia, todos diziam que ela ia visitar o diabo. Quando voltava desses encontros ela preparava suas terríveis poções e fazia previsões, como a de que um dia o rio Corrente sairia do seu leito, causando uma enchente e afogaria a todos. Certa noite houve uma horrível tempestade, inundando tudo. Depois de passada a chuva, a bruxa, sua cabana e sua coruja sumiram. Alguns contam que ela foi arrastada para o fundo de um poço e se transformou num animal horrendo, o qual foi visto algumas vezes tomando sol nas margens do rio, espantando as lavadeiras com seus urros.

Estórias de Brasileiros


Estórias de Brasileiros
do livro Brasil x Portugal - aquele abraço


São Pedro resolveu mudar a porta de céu. É que a porta já estava muito velha, precisando de uma reforma. Ele, então, abriu uma concorrência. 0 primeiro candidato que apareceu foi um português que, depois de medir aqui, ali, fazer suas contas, apresentou um orçamento de três mil dólares. Depois, apareceu o segundo candidato, um americano que, depois de medir tudo e fazer seus cálculos, fez seu orçamento de seis mil dólares, alegando que sua porta era eletrônica, toda especial, material de primeira qualidade.

- Tá bem, disse São Pedro. Vou ouvir a proposta do brasileiro.
- É, a porta está meio ruim, tá caindo de lado, dando cupim na madeira. E eu estou vendo quem é que faz o melhor preço e as melhores condições de trabalho pra mim.
0 brasileiro olhou a porta, mediu, calculou tudo muito direitinho e falou:
- Tá bem, São Pedro. Eu faço o trabalho!
- E seu orçamento?
- Nada, São Pedro. Não é preciso. 0 senhor vai vendo meu serviço, gostando e depois a gente acerta o preço.
- Nada disso. Você tem que dar o seu orçamento. Aqui, eu só trabalho com orçamento. Não adianta...

Aí o brasileiro pensou, pensou e disse:

- Tá bem. Eu faço o serviço por nove mil dólares...
- Nove mil dólares? Tá doido! 0 português faz por três mil. 0 americano faz uma porta eletrônica, com controle remoto, por seis mil e o senhor quer fazer uma porta comum por nove mil dólares?
Aí o brasileiro chamou São Pedro para um reservado, onde não tinha nenhum anjo escutando a conversa, e fez a seguinte proposta:

- 0 negócio é o seguinte. Dos nove mil o senhor fica com três mil, eu fico com três mil e a gente manda o português fazer a porta por três mil dólares. Combinado?

0 Aeroporto da Portela de Sacavém, em Lisboa, estava cheio de brasileiros, recém-chegados. A fila de atendimento estava muito lenta. Então, um dos brasileiros dirige-se, em voz alta, ao chefe da Alfândega:
- Como' é, ó meu... Esta fila não anda?
- Cá, nós não chamamos fila. Cá nós chamamos bicha...
A demora continuava e a funcionária não tinha pressa em despachar o pesssoal. 0 brasileiro, já impaciente, não aguentou mais:
- Ó, meu! Essa moça não trabalha, não?
- Cá nós não chamamos moça. Cá nós chamamos rapariga.
- Ah! é? E filho da p., como é que vocês chamam cá?
- Cá, nós não chamamos. Cá, eles chegam pela Várig...

Um brasileiro vai pela estrada, pára e vê outro que está a cavar com uma enxada, sentado no chão.
- Ei, você, aí! Tá trabalhando sentado?
- Pois é, meu chapa. Já experimentei deitado mas não dava jeito...

Lemas de alguns brasileiros:
- Mais vale morrer de frio do que trabalhar para aquecer..
- Mais vale uma mão inchada do que urna enxada na mão...

Vocês sabem por que os brasileiros se levantam tão cedo pela manhã? É para estarem mais tempo sem fazer nada...

0 que é que fazem os brasileiros depois de terem trabalhado? Tiram as mãos dos bolsos...

Qual é a diferença que há entre um brasileiro e um ovo? É que o ovo tem alguma coisa lá dentro...

Como é que se diz brasileiro em russo? Soestorva (só estorva).

Por que é que se pensou em mandar tropas brasileiras para o Golfo? Para acalmar a situação...

0 que é que parece uma lesma com um pirilampo na cabeça? Parece um brasileiro com idéias luminosas.

0 Joaquim foi tentar a vida no Brasil e deixou, em sua aldeia natal, a Maria e dois filhos ainda pequenos. Com muito trabalho e pouco descanso, o Joaquim conseguiu juntar algum dinheiro e resolveu matar as saudades da santa terrinha. Quando chegou a sua aldeia, encontrou a Maria com mais um filho, o Zézinho, para a feitura do qual o Joaquim não tinha sido metido nem achado. Nada perguntou a Maria e nada lhe foi explicado. Para onde ía, levava o Zézinho e ninguém, na aldeia, teve coragem de fazer qualquer comentário.

Quando Joaquim resolveu voltar para o Brasil anunciou que o Zézinho também vinha com ele. 0 presidente da Junta de Freguesia (uma espécie de prefeito misturado com presidente da Câmara de Vereadores) e o padre foram ao Joaquim, querendo saber por que ele estava preterindo seus dois filhos em benefício do Zézinho, que nem seu filho era. E o Joaquim, com a maior das calmas, informou:
- Eu só vou levar o Zézínho, porque lugar de fdp mesmo é no Brasil!

Um veado brasileiro, fazendo a vida pelo Rossio, foi abordado por uma reportagem de rua da CIC (Canal de TV 33):
- 0 senhor é brasileiro? - perguntou o repórter.
- Sooou, sim - respondeu a boneca toda dengosa.
- Se você não fosse homem, o senhor queria ser o que?
- Se eu não fosse homem, euu queriiia ser uma ambulância, tá?
- Uma ambulância, por que? - insistiu o repórter.
- Paaaara receebeer homens poor tráaas e faaazeeer... uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!

Outra boneca brasileira, abordava seus possíveis clientes nos passantes das calçadas, sempre apinhadas, com perguntas meio esquisitas:
- Aí, que sapatos tão lindos tem o cavalheiro. É pele de...
- De p respondeu o lisboeta, danado da vida.
- Chuta chuta- pede-lhe a boneca virando-lhe as nádegas.

Um casal de portugueses resolve fazer um cruzeiro em volta do mundo. Assim que vêem um monumento, a Maria diz:
- Olha lá... Acho que chegamos ao Brasil!
- Deixa de sere ignorante, mulher! Estamos em Nova York. Não vês que é a estátua da Liberdade?
Depois de mais alguns dias de viagem, lá vem a Maria de novo:
- Agora tenho a certeza de que chegamos ao Brasil!
- Como sabes? Viste o Cristo Redentor?
- Não... Roubaram o meu relógio!

Um dia, chegaram ao mesmo tempo ao céu um político brasileiro e o Papa. São Pedro mandou um anjo conduzir o político para uma tremenda suíte, cheia de mordomia. Tinha sauna, hidromassagem, televisão, vídeocassete, etc. Em seguida levaram o Papa para um quarto comum, onde só tinha uma cama simples e mais nada. 0 Papa fala indignado:
-Mas São Pedro... Isto não é justo! Por que um político brasileiro tem tratamento melhor do que o de um Papa?

E São Pedro explica:

-Acontece que já recebemos aqui no céu mais de cem papas, mas esse é o primeiro político brasileiro que chega aqui!

Por que é que brasileiro não bebe leite gelado? Porque a vaca não cabe na geladeira

De que nacionalidade eram Adão e Eva? Claro que eram brasileiros - respondeu um português. Primeiro, não tinham com que se vestir. Depois, só tinham uma maçã para duas pessoas. E, finalmente, julgavam estar no Paraíso...

Estavam dois brasileiros a trabalhar. Um abria uma cova, um buraco e o outro tapava. E faziam isso sucessivamente. Passou pelo local um português e perguntou por que um cavava e o outro tapava os buracos. Então um dos brasileiros respondeu: - É que o colega encarregado de botar os postes nos buracos não veio trabalhar hoje...

Tu sabes por que os brasileiros têm dois copos à mesa de cabeceira, um com água e o outro vazio? - perguntou um português ao outro.
Não sei, não... - respondeu o amigo.
É porque o copo cheio ele bebe quando tem sede e o vazio é para quando não tem sede...

Por força de um acordo luso-brasileiro os dois países decidiram enviar uma nave espacial à Lua. Então, para coordenar a operação, Portugal enviou dois macacos e o Brasil, dois brasileiros. A missão dos brasileiros era somente para alimentar os macacos e não mexer nos botões de comando...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Poesia: Beijando a fita da viola de "Preto Limão"



(Trecho do Canto 08 do poema “Sertão de Espinho e de Flor”, de OTHONIEL MENEZES (1895-1969), Poeta, Jornalista e Escritor potiguar, inserto na sua “Obra Reunida”, no prelo em 2010, organizada e anotada por Laélio Ferreira, seu filho).


“No alpendre de Dona Santa,
Preto Limão(*) cospe e canta,
num tom de bravura e dó…
Mistral de chapéu-de-couro,
teu verso é uma prima de ouro,
na viola do Seridó!

– Negro velho escopeteiro,
louve aqui meu companhero,
poeta que vem mais eu!
Retruca o Homero tisnado:
– Você traz um convidado,
que é tomém amigo meu!

– Pruquê abasta tê vindo
mais você! Seu moço, eu brindo
vossa entrada no lugá.
Não tem fulôres agora,
mas esta chorona chora
e canta, pra lhe sarvá…

No juazeiro verdinho,
tá cantando um passarinho,
outro chega, e pega o tom…
Num faz mal que eu sêje franco:
sô moreno, o moço é branco
– café cum leite é que é bom…

Poeta parnasiano
– que faz um poema por ano,
e livros lê, mais de cem –,
renego o cinzel e a trena,
beijo essa fita morena
que a tua viola tem!”


(*) Preto Limão: Anota Câmara Cascudo em Vaqueiros e Cantadores, p. 256-257, ed. citada: Preto Limão, famosíssimo cantador e violeiro. Era um negro alto, esguio, de olhos amarelados, e com um cavanhaque de soba africano. É sempre enumerado entre os primeiros cantadores, e como residindo em Natal, embora não fosse verídico.

Derrotou dezenas de menestréis, mais sua maior glória é ter-se batido com Bernardo Nogueira, que o venceu. Dizem os cantadores que Preto Limão só foi vencido por estar doente, e ter a família adoecido também.

Areia na Paraíba concorrerá ao título de Capital Brasileira da Cultura

De 1 de setembro até 30 de outubro de 2010, estará aberto o prazo para inscrição de candidaturas das cidades que desejem concorrer ao título de Capital Brasileira da Cultura 2011.

O Projeto Capital Brasileira da Cultura (CBC) é uma iniciativa com abrangência nacional, implementado pela Organização Capital Brasileira da Cultura (ONG CBC), e está aberto à participação de todos os municípios do Brasil. Tem a finalidade de eleger anualmente uma cidade brasileira com o título de Capital Brasileira da Cultura e conta com o apoio dos ministérios da Cultura e do Turismo e de entidades nacionais e internacionais. Os objetivos do projeto são: valorizar e promover a cultura brasileira em todas as suas formas de expressão; contribuir para que haja um maior conhecimento da identidade e diversidade cultural do Brasil; colaborar nos processos de integração nacional e de inclusão social através da cultura.

A cidade que queira participar do concurso deverá solicitar o Formulário de Candidatura e apresentar a documentação exigida pelo regulamento, acompanhada de uma carta do prefeito. O secretário de Turismo e Eventos da cidade de Areia, jornalista Ney Vital disse que o projeto 2011 e certamente atende as exigências de envolver e movimentar toda a cidade e região. A Prefeitura Municipal já realiza trabalhos para resgatar e valorizar as ações e as pessoas que promovem cultural na primeira cidade da Paraíba reconhecida Patrimônio Nacional da Cultura.

“Ao concorrer ao título de capital brasileira da cultura estaremos buscando o crescimento do setor turístico, divulgação do potencial da cidade, valorizar e expor nossa cultura e as ações de investimento no setor turístico histórico cultural”, ressaltou Ney Vital. "Concorrer ao título já motivo de vitória e orgulho para todos envolvidos no setor cultural da cidade.

A seleção das candidaturas apresentadas pelas prefeituras será feita por uma comissão julgadora formada pelos órgãos e entidades que apoiam o projeto. Em 15 de novembro de 2010 será divulgado o nome da cidade que receberá o título de Capital Brasileira da Cultura 2011, a sexta edição do projeto , após Olinda 2006, São João del-Rei 2007, Caxias do Sul 2008 , São Luís do Maranhão 2009 e Ribeirão Preto 2010.

A cidade eleita como Capital Brasileira da Cultura 2011 deverá desenvolver durante o próximo ano, o programa de atividades proposto na candidatura, que tenha como objetivos valorizar e divulgar seu patrimônio cultural material e imaterial, obtendo com isto muitos benefícios para seu desenvolvimento social e econômico.

PATRIMÔNIO: A serrana cidade de Areia foi tombada como Patrimônio Histórico nacional, pelo seu conjunto Paisagístico, Urbanístico e Cultural desde 2005.

“A Vila Real do Brejo de Areia, Brejo de Areia, Areia” se notabilizou pelo legado cultural e político que rendeu à Paraíba. Afinal, a cidade abriga o primeiro Teatro do Estado, terceiro do Nordeste, o Teatro Minerva, erguido por iniciativa de particulares. Em Areia foi criado o primeiro curso de nível superior do Estado: a Escola de Agronomia do Nordeste; Areia foi o palco do primeiro festival de Artes do Estado, em 1976: os famosos festivais de artes, que até hoje são referência no campo das artes e da cultura nacional. Areia é o berço onde nasceu Pedro Américo, o maior pintor histórico do país e José Américo de Almeida, criador do romance regional brasileiro com “A Bagaceira”. Areia possui ainda uma das Filarmônicas mais antigas do Nordeste em atividade ininterrupta desde 1847. O Hino do Estado da Paraíba é da autoria de dois areenses: Abdón Milanês e Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo.

Hoje, Areia conta com dois grupos de Teatro, grupos de capoeira, bandas marciais, artistas plásticos, grupos folclóricos, dentre eles o Moenda, com experiência internacional, com mais de trinta anos. E músicos, escritores, artesãos. A cidade possui cursos superiores de Agronomia, Zootecnia, Biologia, ciências biológicas, Pedagogia, medicina veterinária e Letras e várias escolas de nível fundamental e médio urbanas e rurais. O Centro de Ciências Agrárias é reconhecido pelo alto nível dos mestres e doutores.

“Por todas essas razões a cidade convida todos os paraibanos e nordestinos a unir-se por esse ideal e mais subir a serra nublada e conhecer a cidade de Areia e seu derredor, como o Museu Jackson do Pandeiro, situado na cidade de Alagoa Grande, vizinha e filha de Areia e também conhecer Bananeiras e todas que forma o rico brejo da Paraíba”, finalizou Elson da Cunha Lima Filho, prefeito de Areia.

Zé Limeira - Biografia



"Escrotidão" poética, pornografia versada, distorções históricas poético-delirantes e prenhes de pseudo-nonsense, métrica ilibada, voz trovejante de bardo nordestino, anéis por todos os dedos, poesia pra todos os lados. Seus trajes aberrantes, sua viola, seu matulão pendurado. Esse aí não é ninguém não, é Zé Limeira, o mais mitológico dentre todos os repentistas surgidos no Brasil. Tem gente que até hoje acha que ele nunca existiu. “Vai ver foi um personagem criado pela cabeça fantasiosa de outros repentistas”, diriam os incautos.

O compêndio poético de sua obra só chegou ao conhecimento das novas gerações graças ao abnegado trabalho de pesquisa realizado pelo advogado e escritor Orlando Tejo, que resultou no livro "Zé Limeira, poeta do absurdo". Os dois se conheceram em 1950 e o encontro entre narrador e narrado é assim descrito pelo primeiro: “Foi numa nublada tarde de sábado que ouvi pela primeira vez José Limeira. Cantava em sombrio casarão da Rua Manuel Pereira de Araújo, movimentado centro do baixo meretrício, em Campina Grande. Chamou-me a atenção a dimensão do óculo (sic) exageradamente escuro que, havia 20 anos, inspirara este espirituoso repente de Severino Pinto:

"Nestes dias vou fazer
Como o nosso Zé Limeira:
Comprar uns óculos escuros
Desses de tolda de feira
Botar o bicho na cara,
Sair cantando besteira"

Alcunhado de poeta do absurdo pelas suas construções poéticas verborrágicas e pelos neologismos mais esdrúxulos como pilogamia, filanlumia e filosomia, este paraibano de Teixeira cultivou um surrealismo assertanejado e altamente psicodélico, como confirmam estes versos:

Casemo no ano de 15
Na seca de 23
A mulher era donzela
Viúva de sete mês
Mais não me alembro que tenha
Um dia ficado prenha,
Estado de gravidez.

Discípulos homenageiam o anômalo do verso

Seu legado ainda sobrevive no contexto da música brasileira, devido ao registro de sua faixa Martelo Alagoano, gravada por Lula Côrtes e Zé Ramalho no LP "Nordeste, Cordel, Repente e Canção", coletânea de repentes com vários poetas populares lançada pela Tapecar, em 1975.

Outra homenagem de Ramalho viria anos mais tarde com a faixa Visões de Zé Limeira sobre o final do século XX do seu LP, "Força Verde”, de 82. O Quinteto Violado também o citaria, na contracapa de seu LP "Pilogamia do Baião", de 1978. A mais recente homenagem viria do grupo oriundo da cena mangue beat do Recife, Mestre Ambrósio que emplacou um hit sobre o mote pop "Se Zé Limeira sambasse maracatu".

Uma décima cantada aqui, um mourão alí, mais um martelo alagoano registrado pela pena de um padre acolá , Orlando Tejo foi catando no fecundo campo da tradição oral o legado de Zé Limeira. Analfabeto de pai e mãe e iniciado no cristianismo como a maioria dos sertanejos, Limeira forjou seu catolicismo místico e bárbaro de porralouca, distorcendo os enredos bíblicos em sua mente decolante. No poético tacho de Limeira, os mitos do Nordeste, da política nacional, ou mesmo o dono da casa são todos cozinhados na sua borbulhante cachola.

Na construção dos repentes os poetas em geral se utilizam de um recurso muito comum que é o sacríficio da coerência discursiva em prol da métrica, mola mestra da poesia popular nordestina. Inventam palavras e expressões para que a estrofe acabe rimando no final. Limeira é diferente. Como legítima expressâo da barbárie vernácula, o caboclo já saia cuspindo seus disparates do primeiro ao último verso. As sílabas , escravas submissas do seu bordão, não tinham direito a tonicidade. Oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas sempre foram idéias bambas. Se algum dia ouviu estas palavras, provavelmente perguntiou: “é algum tipo de verme que eu não conheço ?”

Virgem Maria com o jegue, São Miguel e vacas mansas, cachorras viciadas, padres passados pra trás pela “pimba do índio”, não havia esse que não penasse na picardia lírica do trovador de Teixeira.

Limeira e o Alcorão

As influências do imaginário mouro-ibérico aparecem de relance pela obra de Limeira. O seu imaginário escancarado de passeante das eras, que viria depois influenciar um certo roqueiro que nasceu há dez mil anos atrás, cita Ferrabrás, - príncipe cavaleiro de Alexandria e que fez andanças pela Península Ibérica árabe - e passeia pela mitologia grega e brasileira .

Dezenove de março de 1953, equinócio de outono, data sagrada para os bruxos e disfarçada pela Igreja Católica como dia de São José. Para o sertanejo é mais lembrada como o dia de plantar o milho. Limeira entretanto tinha sido convidado pelo seu amigo e repentista Antônio Barbosa para uma refrega poética na Fazenda Paraíso, região do Vale do Cariri paraibano.

A festa começou cedo. Lá pras tantas da noite, os ponteiros cruzados no 12, a peleja é interrompida pelo dono da festa Severino Ramos

- Cante o romance, pediu o anfitriâo.
- Que romance? , estranhou o poeta
- O romance da Pavôa Devoradora, que você só cantava depois da meia noite, lá no sítio Tauá, porque se cantasse antes dessa hora dessa hora se dava uma desgraça na redondeza.

“A Pavoa Devoradora” só podia ser cantada de olhos fechados e sempre depois da meia noite para que nada de mal ocorresse.

Zé Limeira explica que foi por causa da ave que se deu o dilúvio, a existência dos vulcões e maremotos. Após a insistência dos presentes rezou uma sextilha a Padre Cícero e começou sua cantilena, descrita por seu biógrafo “mais lúgubre do que o corvo, de Alan Poe”. Na temática, pestes e pragas decorridas ao longo da história, epidemias, genocídios e toda classe de desgraça que já assolou o mundo. Ao final do romance – durou 90 minutos o recital - um aguaceiro despencou no esturricado Cariri, com toda a força da natureza. Raios riscavam o firmamento lapiando as pedras enquanto trovões ecoavam pelos ares. “Bico de 36 léguas/ a vomitar fogo e sangue”. Houve quem gritasse: “Zé Limeira veio anunciar o fim do mundo”.

Pornofonia em recital à primeira dama

Por ocasião de um banquete promovido por um governo estadual, na década de 50, apareceu por lá Zé Limeira, com sua bengala de aroeira, 15 anéis nos dedos, viola nas costas e a língua ferina, como sempre, a ponto de bala. Como reza a praxe da cantoria, fez a saudação à anfitriã da festa. Primeiro seu parceiro , com todo a delicadeza que se faz conveniente. Na bucha o Limeira soltou das suas:

Doutô, como eu não tenho um brinde em nota
Que possa oferecer a sua esposa
Dou-lhe um quilo de merda de raposa
Numa casca de cana piojota.

Sobre o primeiro governador geral Thomé de Sousa o boca-porca soltou:

O velho Tomé de Sousa
Governador da Bahia
Casou-se no mesmo dia
Ele fez que nem raposa
Cumeu na frente e atrás,
Chegou na beira do cais
Onde o navio trefega
Cumeu o padre Nobréga
Os tempos não voltam mais.

A cidade onde nasceu , Teixeira, foi o principal reduto de repentistas no século XIX e onde, segundo Tejo, a viola teria sido usada pela primeira como instrumento de cantoria lá pelos idos de 1840. Vivente até o ano de 1954, não há registro de sua voz. Fitas de pesquisadores que gravaram algumas de suas pelejas sumiram ou se deterioraram.

Posso morrer esse ano mas ano que vem eu tô vivo
Se existe um poeta na música brasileira que inovou em estilo e soube captar caoticamente todas as referências históricas e míticas do sertão estwe alguém foi Zé Limeira. Seus versos estrambóticos, cuspidos na brasa das pelejas discursivas de viola até hoje encantam os que tem conhecimento. As cancelas escancaradas do inconsciente coletivo refletido em tinturas áridas agrediam a realidade.

Ao lado dos irmãos Lourival, Dimas e Otacílio Batista, José Alves Sobrinho e outros, o poeta paraibano formou a fina flor do repente.

O poeta nordestino Venâncio de certa feita recitou:

“Se eu pudesse ao cantador
dava um grande prazer
mandava matar a morte
pro cantador não morrer”.

Mas não jeito: a morte chamou Zé Limeira pra prestar contas no firmamento. Pra quem ficou até agora esperando pra saber como se deu o acerto de contas entre o maior dos repentistas com Dona Morte, eis aqui a história , com base nos escritos de Tejo.

Depois de peregrinações pelas Alagoas, Pernambuco, Ceará e Paraíba, o velho poeta sentiu vontade de voltar para casa, o coração apertou de saudade do sítio Tauá, na serra do Teixeira. Saudades de Dona Bela, sua esposa e de suas filhas. Uma bela noitinha chegou no Tauá, seu rincão, santuário onde descansava..

Mal chegou em casa, chega o seu compadre Chico Pedro já o chamando para o aniversário de um fazendeiro. O cantador alagoano Bentevi já estava por lá faltando apenas outro para se completar a parelha. Limeira diz que não vai, a noite seria de Dona Bela, mas se a festa for transferida pro terreiro dele, não rejeitaria peleja . “Pra dar nesse nego véio tem que ter foigo de 7 gatos”, costumava dizer.

Mais tarde chegam as pessoas que estavam no outro sítio , com bancos e demais apetrechos. A festa ia ser mesmo no pátio dos Limeira. Inicia-se a peleja entre Bentevi e o dono da casa. Após as saudações iniciais onde são feitas as dedicatórias e homenagens iniciais, o primeiro intervalo para lubrificar a goela.

Na retomada da cantoria uma comadre lhe pede que entoe “O Romance da Pavoa Devoradora”. Limeira explica que só pode cantar depois da meia-noite sob pena de cantar antes e morrer. A audiência insiste e Limeira, quebrando o preceito diz que vai cantar. As filhas e a esposa tentam demovê-lo. É inútil. Palavra de sertanejo dada, mesmo que morresse, partiria feliz, alimentada sua honra caprichosa.

Após solicitar um silêncio total, fere as doze cordas de sua viola e declama as sinistras e pestilentas estrofes do poema. Com as superstições provocadas pela corda de tragédias que assolaram a humanidade, descritas no poema, alguns ouvintes saem do terreiro e Limeira vai desfiando o rosário lúgubre do romance.

Assim que termina a cantoria, põe sua viola sobre uma cadeira. O instrumento cai. Sua mulher estranha. Segundo ele, a razão teria sido o fato de não rezar para o padre Cícero antes de recitar “A Pavoa”. Dona Bela nota a mudança no semblante do vate. Logo em seguida, ânimos revigorados, os dois poetas se engalfinharam em inspirada peleja. Lá pelas três horas da manhã, era festa de Natal, os dois cavalgando no lombo da poesia em galope a beira-mar, Limeira é fulminado. Vai ao chão com viola e tudo e assim sai da vida para entrar na história o proto-tropicalista e surreal poeta.