quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Novo livro de Cobra Cordelista

Alma Sertaneja é o novo livro do poeta, contador de causos e escritor Cobra Cordelista, para adquirir seu novo trabalho, basta entrar em contato com o mesmo pelo e-mail: cobracordelista@hotmail.com o livro custa R$20,0 (vinte Reais) + despesas postais, para saber mais entre em contato com o autor por seu e-mail.
ASCENÇO CARNEIRO GONÇALVES FERREIRA

Imortalizado como Ascenço Ferreira, o mais renomado poeta pernambucano - foi grande, não só em estatura física, com quase dois metros, mas também em sua prosa.
Falava a língua do povo, numa cadência exuberante e apaixonada, contando as histórias dos nosssos engenhos, dos canaviais, da vida quotidiana e dos anseios do seu povo.
Com o seu famoso chapéu de palha, espalhava pelo Recife a fumaça dos seus charutões, estremecendo as pontes e os prédios com a sua voz profunda e convincente. Declamava pelas ruas do Recife os seus versos, a quem quizesse ouví-los, e entre o povo firmou sua fama e sua glória. Não era homem de palácios nem gabinetes, porque sua essência era o povo.
Tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, e de tomar-lhe a benção, apesar de temeroso da sua imponente figura. Nosso primeiro encontro foi por volta de 1955, quando eu eu tinha apenas 10 anos e minha mãe -- Graziella Marroquim do Nascimento -- me levou para visitar Maria Stella, na sua casa em Campo Grande, Recife. Ascenço e Maria Stella haviam sido muito amigos de Adalberto Afonso de Almeida Marroquim, irmão da minha avó materna, Adalgisa Amanda de Almeida Marroquim - ambos naturais de Campos Frios, Água Preta e filhos de Francisco Corrêa de Almeida Marroquim e Sebastiana Maria da Conceição Areda.
Na época não sabia, mas ele já era separado de Maria Stella de Barros Griz, sobrinha de minha avó paterna, Francisca Gouveia de Barros. Foram amigos por toda a vida, apesar da separação. A casa de Maria Stella era quase vizinha à de seu irmão, também poeta, Jayme de Barros Griz (foto ao lado) - outro vulto do "ciclo da cana de açucar" - poeta dos engenhos e dos canaviais e dono do engenho Liberdade, em Palmares.
Anos mais tarde - já na adolescência - é que eu o conheceria mais profundamente, mas através de sua obra. Estimulado pelo saudoso Irmão Cláudio (Marista, também poeta e grande amigo de Ascenço e de Jayme Griz), declamei seus poemas, mergulhando meu ser na exuberância dos engenhos, no cheiro da cana moída e no verde plenipotente dos canaviais. Com ele aprendi o rítmo e a simplicidade da narração poética e a ele devo o amor que tenho à poesia, à minha terra e às minhas raìzes.
Relembro outros encontros casuais no início da década de 1960, na lanchonete Savoy, da Avenida Gurararapes e no restaurante Leite, em frente ao cinema Moderno, pontos habituais dele e de meu pai, Carlos de Barros Carvalho (foto ao lado).
Além de serem primos, por via do casamento de Ascenço com Maria Stella de Barros Griz -- prima de meu pai, foram amigos de infância, juntamente com os oito outros irmãos Barros Carvalho. Gostavam de um chopinho bem gelado, uma boa aguardente e os pratos fastidiosos do cardápio pernambucano - rabada, sarapatel, cozido, e carne de sol - tudo com farinha de mandioca - como ilustra Semira Adler Vainsencher, pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco:
"Ascenço tinha quase 2m de altura, usava um chapéu de palha na cabeça, adorava comer e fumava sempre um grande charuto. Um de seus amigos lembrava que, certa tarde, depois de tomar banho no rio Passarinho, o guloso poeta almoçou três pratos fundos de sarapatel, com farinha de mandioca e pimenta malagueta, bebeu um litro de aguardente com mel de abelha, e, de sobremesa, ainda comeu a metade de uma jaca mole. Quando chegara em casa, à noite, disse à esposa que estava sem fome e, por isso, se contentava com um prato de pirão de leite e um pedaço de carne de sol".
A amizade de Ascenço com o meu tio Antônio de Barros Carvalho era mais intelectual e política, mas sempre incluindo os nossos pratos tradicionais. Em 1917 ele dois e outros intelectuais fundaram a sociedade HORA LITERÁRIA DE PALMARES. Gerardo Mello Mourão, no seu livro "Um Senador de Pernambuco - Breve Memória de Antônio de Barros Carvalho" - 1999, Topbooks Editora, Rio de Janeiro - páginas 97 e 98 -- conta que Antônio foi um dos que introduziram Ascenço no âmbito sociai e político de Pernambuco e do Brasil - assim conta o autor, referindo-se ao primeiro encontro do então deputado Barros Carvalho com Getúlio Vargas:
"...Getúlio tornou logo informal e cordial o encontro. Sua primeira e surpreendente pergunta foi: "O senhor, que é pernambucano, conhece pessoalmente o poeta Ascenço Ferreira"? "É meu parente, -- informou Barros -- casado com minha prima, a bela Stela Griz". "Pois traga-o aqui, que gosto muito de vê-lo". E passou a recitar de cor o famoso poema de Ascenço sobre as bravatas do gaúcho, que terminava com o verso: "Pra quê? -- Pra nada". Tres ou quatro vezes Barros levou o gigantesco Ascenço ao presidente, que sempre lhe pedia para recitar o poema do gaúcho. O poeta o repetia em sua voz ondulada e em seu cultivado sotaque nordestino, e Getúlio dava sempre uma gargalhada no final". E continua o autor:.
"O poeta Ascenço Ferreira, filho da professora dona Marocas, era companhia permanente de Barros, desde os dias da infância em Palmares. Pouca gente sabe que o nome de registro de Ascenço era Aníbal Torres. Mas foi Ascenço que ele se chamou, desde menino, quando trabalhava como balconista na loja palmarense de seu padrinho Joaquim Ribeiro.
Esta amizade se tornaria íntima e familiar, depois que Barros o apresentou a sua prima Stela Griz, Maria Stela de Barros Griz, filha do poeta Fernando Griz, com quem se casou. Foi ainda Barros que introduziu o poeta de Cana caiana em alguns dos melhores círculos do Recife, levando-a a amigos como seu tio, deputado Gouveia de Barros, Luís da Câmara Cascudo, Manoel Bandeira e Gilberto Freyre. Este último o faria participar do Congresso Afro-Brasileiro, realizado no Recife em 1934.
Depois da edição de Cana caiana, de 1939, custeada por Edgard Teixeira Leite, Ascenço teve suas belas edições lançadas por José Olympio, no Rio, por interferência de Barros, com muitas páginas ilustradas por sua irmã, Lúcia de Barros Carvalho, ou Lúcia Nóbrega, que tomou o nome artístico de "Suané".
Alguns poemas de Ascenço registram a aproximação que tinha à família Barros Carvalho. Um deles,intitulado "Tradição", foi baseado em história contada a Ascenço pelo Padre Nelson de Barros Carvalho, referindo-se ao meu avô, o coronel Carvalhinho (José de Carvalho e Albuquerque, casado com D. Francisquinha (Francisca Gouveia de Barros) -- foto abaixo, tia materna de Maria Stella de Barros Griz:
Com o seu famoso chapéu de palha, espalhava pelo Recife a fumaça dos seus charutões, estremecendo as pontes e os prédios com a sua voz profunda e convincente. Declamava pelas ruas do Recife os seus versos, a quem quizesse ouví-los, e entre o povo firmou sua fama e sua glória. Não era homem de palácios nem gabinetes, porque sua essência era o povo.
Tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, e de tomar-lhe a benção, apesar de temeroso da sua imponente figura. Nosso primeiro encontro foi por volta de 1955, quando eu eu tinha apenas 10 anos e minha mãe -- Graziella Marroquim do Nascimento -- me levou para visitar Maria Stella, na sua casa em Campo Grande, Recife. Ascenço e Maria Stella haviam sido muito amigos de Adalberto Afonso de Almeida Marroquim, irmão da minha avó materna, Adalgisa Amanda de Almeida Marroquim - ambos naturais de Campos Frios, Água Preta e filhos de Francisco Corrêa de Almeida Marroquim e Sebastiana Maria da Conceição Areda.
Na época não sabia, mas ele já era separado de Maria Stella de Barros Griz, sobrinha de minha avó paterna, Francisca Gouveia de Barros. Foram amigos por toda a vida, apesar da separação. A casa de Maria Stella era quase vizinha à de seu irmão, também poeta, Jayme de Barros Griz (foto ao lado) - outro vulto do "ciclo da cana de açucar" - poeta dos engenhos e dos canaviais e dono do engenho Liberdade, em Palmares.
Anos mais tarde - já na adolescência - é que eu o conheceria mais profundamente, mas através de sua obra. Estimulado pelo saudoso Irmão Cláudio (Marista, também poeta e grande amigo de Ascenço e de Jayme Griz), declamei seus poemas, mergulhando meu ser na exuberância dos engenhos, no cheiro da cana moída e no verde plenipotente dos canaviais. Com ele aprendi o rítmo e a simplicidade da narração poética e a ele devo o amor que tenho à poesia, à minha terra e às minhas raìzes.
Relembro outros encontros casuais no início da década de 1960, na lanchonete Savoy, da Avenida Gurararapes e no restaurante Leite, em frente ao cinema Moderno, pontos habituais dele e de meu pai, Carlos de Barros Carvalho (foto ao lado).
Além de serem primos, por via do casamento de Ascenço com Maria Stella de Barros Griz -- prima de meu pai, foram amigos de infância, juntamente com os oito outros irmãos Barros Carvalho. Gostavam de um chopinho bem gelado, uma boa aguardente e os pratos fastidiosos do cardápio pernambucano - rabada, sarapatel, cozido, e carne de sol - tudo com farinha de mandioca - como ilustra Semira Adler Vainsencher, pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco:
"Ascenço tinha quase 2m de altura, usava um chapéu de palha na cabeça, adorava comer e fumava sempre um grande charuto. Um de seus amigos lembrava que, certa tarde, depois de tomar banho no rio Passarinho, o guloso poeta almoçou três pratos fundos de sarapatel, com farinha de mandioca e pimenta malagueta, bebeu um litro de aguardente com mel de abelha, e, de sobremesa, ainda comeu a metade de uma jaca mole. Quando chegara em casa, à noite, disse à esposa que estava sem fome e, por isso, se contentava com um prato de pirão de leite e um pedaço de carne de sol".
A amizade de Ascenço com o meu tio Antônio de Barros Carvalho era mais intelectual e política, mas sempre incluindo os nossos pratos tradicionais. Em 1917 ele dois e outros intelectuais fundaram a sociedade HORA LITERÁRIA DE PALMARES. Gerardo Mello Mourão, no seu livro "Um Senador de Pernambuco - Breve Memória de Antônio de Barros Carvalho" - 1999, Topbooks Editora, Rio de Janeiro - páginas 97 e 98 -- conta que Antônio foi um dos que introduziram Ascenço no âmbito sociai e político de Pernambuco e do Brasil - assim conta o autor, referindo-se ao primeiro encontro do então deputado Barros Carvalho com Getúlio Vargas:
"...Getúlio tornou logo informal e cordial o encontro. Sua primeira e surpreendente pergunta foi: "O senhor, que é pernambucano, conhece pessoalmente o poeta Ascenço Ferreira"? "É meu parente, -- informou Barros -- casado com minha prima, a bela Stela Griz". "Pois traga-o aqui, que gosto muito de vê-lo". E passou a recitar de cor o famoso poema de Ascenço sobre as bravatas do gaúcho, que terminava com o verso: "Pra quê? -- Pra nada". Tres ou quatro vezes Barros levou o gigantesco Ascenço ao presidente, que sempre lhe pedia para recitar o poema do gaúcho. O poeta o repetia em sua voz ondulada e em seu cultivado sotaque nordestino, e Getúlio dava sempre uma gargalhada no final". E continua o autor:.
"O poeta Ascenço Ferreira, filho da professora dona Marocas, era companhia permanente de Barros, desde os dias da infância em Palmares. Pouca gente sabe que o nome de registro de Ascenço era Aníbal Torres. Mas foi Ascenço que ele se chamou, desde menino, quando trabalhava como balconista na loja palmarense de seu padrinho Joaquim Ribeiro.
Esta amizade se tornaria íntima e familiar, depois que Barros o apresentou a sua prima Stela Griz, Maria Stela de Barros Griz, filha do poeta Fernando Griz, com quem se casou. Foi ainda Barros que introduziu o poeta de Cana caiana em alguns dos melhores círculos do Recife, levando-a a amigos como seu tio, deputado Gouveia de Barros, Luís da Câmara Cascudo, Manoel Bandeira e Gilberto Freyre. Este último o faria participar do Congresso Afro-Brasileiro, realizado no Recife em 1934.
Depois da edição de Cana caiana, de 1939, custeada por Edgard Teixeira Leite, Ascenço teve suas belas edições lançadas por José Olympio, no Rio, por interferência de Barros, com muitas páginas ilustradas por sua irmã, Lúcia de Barros Carvalho, ou Lúcia Nóbrega, que tomou o nome artístico de "Suané".
Alguns poemas de Ascenço registram a aproximação que tinha à família Barros Carvalho. Um deles,intitulado "Tradição", foi baseado em história contada a Ascenço pelo Padre Nelson de Barros Carvalho, referindo-se ao meu avô, o coronel Carvalhinho (José de Carvalho e Albuquerque, casado com D. Francisquinha (Francisca Gouveia de Barros) -- foto abaixo, tia materna de Maria Stella de Barros Griz:
"Tradição"
Ascenço Ferreira
"Terraço da Casa-Grande de manhãzinha
fartura espetaculosa dos coronéis:
-- Ô Zé-estribeiro! Zé -- estribeiro!
-- Inhôôr!
-- Quantos litros de leite deu a vaca Cumbuca?
-- 25 seu Curuné!
-- E a vaca Malhada?
-- 27 seu Curuné!
-- E a vaca Pedrês?
-- 35 seu Curuné!
-- Sóo? Diabo! os meninos hoje não tem o qui mamar!"
Ascenço Ferreira
"Terraço da Casa-Grande de manhãzinha
fartura espetaculosa dos coronéis:
-- Ô Zé-estribeiro! Zé -- estribeiro!
-- Inhôôr!
-- Quantos litros de leite deu a vaca Cumbuca?
-- 25 seu Curuné!
-- E a vaca Malhada?
-- 27 seu Curuné!
-- E a vaca Pedrês?
-- 35 seu Curuné!
-- Sóo? Diabo! os meninos hoje não tem o qui mamar!"
sábado, 8 de janeiro de 2011
AMÁLIA GUIMARÃES

Amália, a pernambucana Amália
Por Gilberto Freyre
(Para os Diários Associados)
Matéria publicada no Diário de Pernambuco
Secção Opinião, em 6 de Maio de 1973
Não: não é privilégio de Pernambuco vir contribuindo para dar ao Brasil algumas das mulheres mais ilustres pela personalidade, pela beleza, pela graça, pelo espírito e até pela coragem; que o diga o feito heróico das bravas sinhás de Tejucupapo. Tanto não é só Pernambuco que vem produzindo mulheres superiores que o pernambucaníssimo Joaquim Nabuco, depois de um idílio célebre com iaiázinha fluminense, casou com outra fluminense fidalga e ilustre, sem nunca ter tido flirt sequer com pernambucana; a não ser, segundo certa tradição, uma inglesa das chamadas de Apipucos.
Mas quem, senão uma pernambucana, famosa pela beleza -- uma Alves da Silva -- inspirou a Maciel Monteiro o "formosa qual pincel em tela fina, debuxar jamais pôde ou nunca ousar?" Quem senão uma pernambucana, jovem e morena, mereceu de Castro Alves o seu primeiro amor de poeta talvez mais poeta pelos seus líricos que pela sua ardente retórica política?
Quem senão uma pernambucana foi esposa de diplomata brasileiro que mais se distinguiu na Europa e nas Américas pela fidalguia do seu porte de filha de senhor de engenho brasileiro a quem uma governante inglesa acrescentara dignidade Vitoriana, sendo ela menina de casa-grande de Vitória: Flora Cavalcanti de Oliveira Lima? Quem, senão a tambem pernambucana Dona Olegarinha soube juntar as façanhas cívicas do popularíssimo esposo à doçura e à abnegação de uma abolicionista por nenhuma outra exercida no Brasil, em serviços à grande causa?
Pernambuco vem sendo tão opulento de mulheres de valor como de homens superiores. E há uma graça de mulher brasileira que só se encontra na pernambucana como há outra própria só de baianas e, ainda outra, de gaúchas, sem nos esquecermos do encanto, já internacionalmente célebre, da carioca ou da paulista.
Ao que se pretende chegar com este comentário ao valor da pernambucana? À recordação de recente perda, para Pernambuco, de uma figura de mulher em cuja personalidade se juntavam as mais fortes características da gente de sua terra. Ninguem mais brasileira. Mas dentro de sua brasileiridade, ninguem que, no Rio, onde residia há longos anos, se conservasse mais fiel às suas origens. Mais pernambucanamente mestra da culinária tradicional de Pernambuco. Mais vibrante de civismo. Mais leitora de autores novos sem deixar de reler os antigos. Mais saudosa dos sobrados do Recife, dos azulejos de Olinda, dos canaviais de Jaboatão, das goiabeiras dos fundos de sítios ou simplesmente de quintais recifenses.
Refiro-me a Amália Guimarães de Barros Carvalho. Era senhorial sem deixar de ser simples. Juntava ao gosto pelas pratas, pelas louças e pelos móveis fidalgos a sensibilidade às artes populares mais rústicas; inclusive a dos doces plebeus vendidos outrora -nos dias de sua meninice - em taboleiros. Explica-se que de sua união com o no fim da vida Senador Antonio de Barros Carvalho tivesse resultado uma artista do extraordinário valor de Rosa Maria*. Complementavam-se, nos últimos anos, a mãe e a filha.
Inclusive a filha ilustrando, de modo admirável, o livro que a mãe deixa felizmente pronto para publicação, de receitas de quitutes tradicionais de sua terra. Livro que, agora, precisa de sair quanto antes, com as suas ilustrações a cores inspiradas pela autora à arte da filha e colaboradora.
* Rosa Maria de Barros Carvalho -- filha única de Antonio e Amália, ilustrou várias obras de Gilberto Freyre e de outros famosos personagens da literatura brasileira.
(Para os Diários Associados)
Matéria publicada no Diário de Pernambuco
Secção Opinião, em 6 de Maio de 1973
Não: não é privilégio de Pernambuco vir contribuindo para dar ao Brasil algumas das mulheres mais ilustres pela personalidade, pela beleza, pela graça, pelo espírito e até pela coragem; que o diga o feito heróico das bravas sinhás de Tejucupapo. Tanto não é só Pernambuco que vem produzindo mulheres superiores que o pernambucaníssimo Joaquim Nabuco, depois de um idílio célebre com iaiázinha fluminense, casou com outra fluminense fidalga e ilustre, sem nunca ter tido flirt sequer com pernambucana; a não ser, segundo certa tradição, uma inglesa das chamadas de Apipucos.
Mas quem, senão uma pernambucana, famosa pela beleza -- uma Alves da Silva -- inspirou a Maciel Monteiro o "formosa qual pincel em tela fina, debuxar jamais pôde ou nunca ousar?" Quem senão uma pernambucana, jovem e morena, mereceu de Castro Alves o seu primeiro amor de poeta talvez mais poeta pelos seus líricos que pela sua ardente retórica política?
Quem senão uma pernambucana foi esposa de diplomata brasileiro que mais se distinguiu na Europa e nas Américas pela fidalguia do seu porte de filha de senhor de engenho brasileiro a quem uma governante inglesa acrescentara dignidade Vitoriana, sendo ela menina de casa-grande de Vitória: Flora Cavalcanti de Oliveira Lima? Quem, senão a tambem pernambucana Dona Olegarinha soube juntar as façanhas cívicas do popularíssimo esposo à doçura e à abnegação de uma abolicionista por nenhuma outra exercida no Brasil, em serviços à grande causa?
Pernambuco vem sendo tão opulento de mulheres de valor como de homens superiores. E há uma graça de mulher brasileira que só se encontra na pernambucana como há outra própria só de baianas e, ainda outra, de gaúchas, sem nos esquecermos do encanto, já internacionalmente célebre, da carioca ou da paulista.
Ao que se pretende chegar com este comentário ao valor da pernambucana? À recordação de recente perda, para Pernambuco, de uma figura de mulher em cuja personalidade se juntavam as mais fortes características da gente de sua terra. Ninguem mais brasileira. Mas dentro de sua brasileiridade, ninguem que, no Rio, onde residia há longos anos, se conservasse mais fiel às suas origens. Mais pernambucanamente mestra da culinária tradicional de Pernambuco. Mais vibrante de civismo. Mais leitora de autores novos sem deixar de reler os antigos. Mais saudosa dos sobrados do Recife, dos azulejos de Olinda, dos canaviais de Jaboatão, das goiabeiras dos fundos de sítios ou simplesmente de quintais recifenses.
Refiro-me a Amália Guimarães de Barros Carvalho. Era senhorial sem deixar de ser simples. Juntava ao gosto pelas pratas, pelas louças e pelos móveis fidalgos a sensibilidade às artes populares mais rústicas; inclusive a dos doces plebeus vendidos outrora -nos dias de sua meninice - em taboleiros. Explica-se que de sua união com o no fim da vida Senador Antonio de Barros Carvalho tivesse resultado uma artista do extraordinário valor de Rosa Maria*. Complementavam-se, nos últimos anos, a mãe e a filha.
Inclusive a filha ilustrando, de modo admirável, o livro que a mãe deixa felizmente pronto para publicação, de receitas de quitutes tradicionais de sua terra. Livro que, agora, precisa de sair quanto antes, com as suas ilustrações a cores inspiradas pela autora à arte da filha e colaboradora.
* Rosa Maria de Barros Carvalho -- filha única de Antonio e Amália, ilustrou várias obras de Gilberto Freyre e de outros famosos personagens da literatura brasileira.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Martelo meu pensar

Martelo meu pensar
Martelo;
Centauro;
Sentado o vento sopra longe do acaso das virgens que sonham por quem nunca há de chegar.
Martelo;
Asfalto;
Vem vento descalço, sem roupas. Desnudo! Sem culpa da culpa que me foi doada em forma de peste e demência do que há por lá.
Martelo;
Tempo;
Asilo;
Pecado, combinação de cofre arrombado, sem nada para ver de fato valioso, pois vida se esvai com ou sem rimas de virgens que sonham pecados entre seus rins.
Pecados no asfalto! Loucos de pedra que rasgam dinheiro e comem merda como se fossem deuses dessa vida morta moderna.
Martelo quebrado;
Cabeça quebrada;
Escândalo calado;
Martelo minha vida, sem tempo, sem vida de fato. O tédio, a impotência da morte é meu martelo, que martelo meu pensar.
Marcos Henrique.
Marcos Henrique é escritor e poeta, reside em Jaboatão dos Guararapes-PE.
Seu blog:http://poemasdecaverna.blogspot.com/
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Conheça Laudemiro - O Lampião moderno da Paraíba
É no sertão paraibano, mais precisamente na cidade de São João do Rio do Peixe (485km de João Pessoa) que vive Laudemiro, o Lampião do século XXI. Bem diferente do verdadeiro, o Lampião da Paraíba é um sujeito tranquilo, mas também faz sucesso por onde passa. Conheça um pouco mais dessa história.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
LEONARDO ORLANDO DE BARROS o coronel abolicionista

LEONARDO ORLANDO DE BARROS, pai da minha avó paterna, Francisca Gouveia de Barros, foi senhor de muitos engenhos na zona da mata de Pernambuco, especialmente em Palmares, onde era dono do Engenho Camevou (Cá-me-vou) e Santo Antônio. Nesses dois engenhos nasceram seus nove filhos - oito varões e uma mulher.
Ao contrário do meu outro bisavô paterno, o
Major Antônio de Carvalho e Albuquerque, Leonardo era Liberal, e deu liberdade a seus escravos um ano antes da Lei Áurea.
Autodidata, falava várias linguas, inclusive o dialeto indígena. Era também poeta, músico e
compositor, segundo os relatos de vovó Franciscquinha.
Estudando o cultivo da cana, foi responsável
pela introdução da saúva em Pernambuco - a
qual importou de São Paulo. Construiu em Pernambuco a primeira casa de farinha, em nível industrial e cultivou novas variedades da cana de açucar, mais resistentes às pragas.
Sua vida merece um estudo mais detalhado, que algum dia gostaria de fazer, mas para adiantar
transcrevo abaixo o que nos conta Gerardo Mello Mourão no seu livro intitulado - Um Senador de Pernambuco - Breve Memória de Antonio de Barros Carvalho Topbooks, 1999, 199 páginas. (págs. 26 a 31)
"Leonardo Orlando de Barros foi filho e neto de Albuquerques e Cavalcantis, da árvore dos Rego Barros, do conde da Boa Vista (Francisco do Rego Barros), descendente em linha direta de Jerônimo de Albuquerque e de Catarina de Albuquerque, de Maria do Espírito Santo Arcoverde, dos Albuquerque Melo, dos Cavalcanti e dos Albuquerque Maranhão"
"Leonardo, filho do coronel Manuel Cavalcanti de Albuquerque Barros e de Ursulina de Castro Sá Barreto - dos Sá Cavalcanti de Ipojuca - começou a aumentar seu patrimônio ao casar-se com dona Francisca Caraciola da Costa Gouveia, filha do coronel João Bento de Gouveia, gente de costados na Casa da Torre e nos primeiros donatários da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho Pereira e Dona Brites de Albuquerque. Este João Bento era marido de dona Rita Enedina da Costa, filha do português José da Costa, chegado ao Recife no final do século XVIII, em mil setecentos e tantos.
A família ainda hoje guarda a lenda deste Costa. Saiu de Portugal em circunstancias dramáticas e pitorescas. Perseguido por agentes de justiça, com ordens de arrastá-lo, vivo ou morto – perseguido no sentido literal da palavra - escapou em desabalada carreira pelas ruas de Lisboa, alcançando um navio que se preparava para partir, no qual se meteu com a roupa do corpo, sem saber para onde ia, até que os marinheiros o despejassem, afinal, nas praias do Recife. A versão mais corrente é a história de uma pedrada atirada a esmo, numa praça de Restelo, que teria atingido a cabeça de um cortesão ou de um clérigo poderoso, que mobilizou os beleguins no encalço do rapaz.
Bendita pedrada! Ao dar com os costados em Pernambuco, depois de arranjar-se em ocupações modestas, ajudado pela versão do que seria, para uns, um fidalgo rebelde, para outros o filho estróina de uma família rica de Portugal, o Costa, com a velha sagacidade mercantil dos portugueses, casou-se bem, foi adotado pela sociedade pernambucana, e acabou senhor de canaviais, tendo deixado aos descendentes um surpreendente inventário de engenhos de nomes sonoros. Era dono dos engenhos Cucaú, Catuama, Burarema, Oncinha, Conceição, Cabuçu, Limão Doce, Maçaranduba e outros.
O português deu à filha Rita, como presente ou dote de casamento, o valioso Engenho Mato Grosso, do qual a bisneta, Dona Francisquinha, nos manuscritos de seu diário de Sinhá de Engenho, recolhidos pela filha Suané (Lúcia de Barros Carvalho - Lúcia Nóbrega) - diz que era um "portentoso engenho imenso e lindo". Maior do que aqueles que ela mesmo recebeu também como dote, o Engenho Camevou (Onde nasceram Carlos e Antonio de Barros Carvalho), adquirido de um parente rico e solteirão, o capitão José Cardoso de Araújo, cunhado do Barão de Contendas, (Antônio Epaminondas de Barros Correia) e o engenho Santo Antonio – terras das reinações de infância e da adolescência dos oito filhos homens e da filha do Coronel Carvalhinho e dona Francisquinha.
Os senhores de engenho foram, muitas vezes, precursores das mais avançadas reformas políticas, econômicas e sociais de seu tempo. Entre eles se recrutaram os primeiros partidários da República, os mais apaixonados abolicionistas e os mais progressistas pioneiros da agroindústria de seu tempo. O avô materno dos Barros Carvalho, coronel Leonardo Orlando de Barros, é um fascinante exemplo desse tipo esclarecido de senhores de engenho. Era uma espécie de iluminista "à l'état sauvage" - para usar a expressão de Claudel sobre Rimbaud.
Antônio (Antonio de Barros Carvalho) era fascinado pelas histórias deste avô. Quando senador, deu uma vez uma entrevista ao jornalista Aderson Magalhães, do então prestigioso Correio da Manhã, interessado em documentar as experiências sociais e as reformas introduzidas pelo coronel Leonardo nas atividiades de seus engenhos pernambucanos. Uma delas merece ser contada aqui, até por seu caráter pitoresco.
O coronel era autodidata, mas apaixonado por todo tipo de leitura. Aprendeu francês sozinho, comprava livros franceses e revistas francesas de agricultura, junto com as publicações nacionais que mandava vir de São Paulo. Um dia leu numa dessas revistas que em São Paulo havia uma formiga terrível, a saúva, que de acordo com o que lera em periódicos franceses, tinha todas as características dos himetópteros que atacam e destroem os insetos malígnos que provocam a broca da cana. Não teve dúvidas: encomendou ao Departamento de Agricultura de São Paulo, ou a uma escola de Piracicaba, um carregamento de saúvas. O pedido insólito foi despachado, e os fornecedores, como a Alfândega do Recife, acreditaram que se tratava dum entomologista interessado em estudar as formigas ruivas.
O coronel recebeu a carga preciosa, entupiu de saúvas seus canaviais e ainda ofereceu as sobras a alguns amigos, progressistas como ele, nas experiências da lavoura. Resultado: matou as larvas da broca, mas em compensação introduziu em Pernambuco uma praga pior - a praga da saúva, da qual diria anos depois Monteiro Lobato que "ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil."
A mãe de Antônio (Antônio de Barros Carvalho) , dona Francisquinha, conta em seu Diário:
"Meu pai entendia de todas as artes. Poetava nas noites do engenho, e enchia cadernos de versos sentimentais, metrificados e rimados, no tom dos românticos da moda. Não tocava nenhum instrumento, mas sabia música e ensinava a qualquer um que quisesse aprender, como ensinou aos filhos piano, flauta e violão. Dançava muito bem - conta a filha - e nos adestrou na "quadrilha", na polka, na "valsa", "shots" e "lanceiros". Eram as danças de salão da época." Como agricultor - conta ainda a filha memorialista - passou anos lutando para obter a semente da cana nascida na flor da flecha.
O sistema utilizado era plantar o broto da cana. Aprendera em suas leituras, e em seu saber de experiências feito, que a cana brotada da semente não viria já atacada pelas pragas, como ocorria com o broto de socas, re-socas e contra-socas. A praga da broca da cana era um flagelo naquele tempo. Os senhores de engenho apelavam para os conhecimentos de Leonardo, mas o processo por ele adotado, até por ser pioneiro e inédito, era lento e aleatório. Muitos já duvidavam do êxito, e achavam que Leonardo estava perdendo tempo.
Mas o coronel era teimoso. Levou anos em suas experiências, até que um dia viu surgir o broto vivo de uma semente de cana. A alegria do pesquisador não foi menor do que a importância da descoberta para a salvação dos canaviais. A princípio, os pantadores vinham a seu engenho mais incrédulos do que esperançosos, e só se convenciam depois de ver o broto verde rompendo a semente minúscula. O coronel plantou imensos canaviais com sua cana limpa, e passou a produzir vários tipos da semente saudável, que distribuiu entre os colegas dos engenhos da várzea. Criou várias espécies de cana, classificando-as com nomes que escolhia.
A uma chamou de "Leonardo", dando-lhe seu próprio nome. A outra chamou de "Arcoverde", em homenagem a seu primo, Dr. Leonardo Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti. Criou a cana "Botocuda" e a cana "Melo", em homenagem a seu grande amigo, vizinho e compadre, o coronel Pihauhylino Gomes de Mello (a quem pertenceu o Engenho Camevou). E várias outras, cujos nomes a improvisada memorialista, já septuagenária, não conseguia recordar.
Ainda instruido por suas leituras especializadas, construiu a primeira casa de farinha em Pernambuco, capaz de processar trinta cuias por dia, o equivalente a cerca de um alqueire, ou trinta litros, com apenas dois empregados, o que reduzia em noventa por cento a necessidade da mão de obra. Em seu Engenho Camevou instalou a primeira restilaria do Estado, capaz de produzir os mais refinados tipos de álcool bidestilado.
Era republicano e abolicionista, amigo de Joaquim Nabuco, Marins Júnior, Silva Jardim e José do Patrocínio, com eles mantendo ativa correspondência em torno das atividades abolicionistas. Gozava de grande prestígio entre todos os senhores de engenho da região, e a imagem que todos tinham dele era de um homem exemplar por sua bravura, por seu cavalheirismo, pela firmeza de sua palavra e por seu sentimento de honra pessoal.
Nunca aceitou postos de governo. E do poder público valeu-se apenas uma única vez: o Barão de Lucena (Henrique Pereira de Lucena), seu parente próximo e seu grande amigo, por cuja causa lutara ativamente, ao eleger-se governador (* 05/11/1872 a 10/05/1875), insistia para que escolhesse a posição que quisesse em seu governo. Leonardo tinha um único desafeto em Pernambuco: um senhor de engenho vizinho à sua propriedade, que montara em suas terras uma quadrilha de ladrões de cavalo, e vivia depredando, a ferro e fogo, em surtidas criminosas, as reservas de animais dos outros proprietários.
Disse ao seu parente Barão de Lucena que não queria nada: apenas ser delegado de Bentevi por um dia, e que o chefe de polícia pusesse sob suas ordens, também por um dia, duzentos soldados. Invadiu o engenho do ladrão de cavalos, apreendeu todo o seu arsenal e acabou com o abigeato que intranquilizava a região. Conta-se que o chefe de bando então castigado, que era também senhor de engenho, dizia, até o fim da vida, que só de uma coisa tinha vergonha: de não ter merecido a amizade do coronel Leonardo.
O coronel que teve a coragem de importar a saúva não teve receio de correr outro risco: passou a ser um ativista na campanha da abolição. Quando ela chegou, já fazia mais de um ano que não havia escravos em suas propriedades. Recebeu pelo telégrafo a notícia da abolição, reuniu os antigos escravos que continuavam a viver no engenho, mandou que convidassem todos os outros dos engenhos em redor, chamou todos os senhores de engenho da redondeza e promoveu festa de arromba no terreiro da casa-grande. A filha memorialista (Francisca Gouveia de Barros), que participou da festa, conta a história:
"Meu pai reuniu os ex-escravos no terraço, comunicou-lhes que tinha sido decretada a abolição, e que não havia mais escravos no Brasil. Muita emoção, muitos vivas e palmas foram dados à princesa Isabel. Meu pai fez um discurso que comoveu a todos e disse-lhes que em regozijo realizassem uma festa, convidando seus colegas e os senhores seus amigos; ele daria o vinho e tudo quanto fosse necessário. Mandou matar os garrotes, os carneiros, os bodes, os porcos e as galinhas-d'angola para o banquete. Os ex-escravos engalanaram a casa do engenho, improvisaram-se mesa para mais de duzentos talheres, fizeram os convites.
Compareceram muitos escravos e amigos de meu pai. Comeram e beberam à vontade, dançaram um dia e uma noite, os brancos se misturaram com os negros, as sinhazinhas serviram a mesa, reinou muita alegria. Acabadas as comemorações, cada um tomou um novo rumo. Uns ficaram trabalhando para meu pai, recebendo seu salário; ele lhes deu uma posse de terra para plantarem cana ou o que quisessem."
Este é um breve retrato do avô de Antônio de Barros Carvalho, o senhor de engenho que ele mais admirava em sua família, filho e neto de Albuquerques e Cavalcantis, da árvore dos Rego Barros, do Conde da Boa Vista, descendente em linha direta de Jerônimo de Albuquerque e de Catarina de Albuquerque, de Maria do Espírito Santo Arcoverde, dos Albuquerque Melo, dos Cavalcanti e dos Albuquerque Maranhão. Mas era um aristocrata liberal e esclarecido, que tinha, como o primeiro Jerônimo de que descendia, um pé fincado nas casas nobres da província e do Império, e outro na taba do indio Arcoverde, na senzala dos africanos e nas ruas do Recife, a cidade rebelde por excelência.
O coronel Leonardo, pai de dona Francisquinha, foi também pai de um filho de alta reputação em Pernambuco, o dr. Gouveia de Barros (Manoel Gouveia de Barros), médico considerado e político bem sucedido, que seria Secretário de Estado e deputado federal.
Ao contrário do meu outro bisavô paterno, o
Major Antônio de Carvalho e Albuquerque, Leonardo era Liberal, e deu liberdade a seus escravos um ano antes da Lei Áurea.
Autodidata, falava várias linguas, inclusive o dialeto indígena. Era também poeta, músico e
compositor, segundo os relatos de vovó Franciscquinha.
Estudando o cultivo da cana, foi responsável
pela introdução da saúva em Pernambuco - a
qual importou de São Paulo. Construiu em Pernambuco a primeira casa de farinha, em nível industrial e cultivou novas variedades da cana de açucar, mais resistentes às pragas.
Sua vida merece um estudo mais detalhado, que algum dia gostaria de fazer, mas para adiantar
transcrevo abaixo o que nos conta Gerardo Mello Mourão no seu livro intitulado - Um Senador de Pernambuco - Breve Memória de Antonio de Barros Carvalho Topbooks, 1999, 199 páginas. (págs. 26 a 31)
"Leonardo Orlando de Barros foi filho e neto de Albuquerques e Cavalcantis, da árvore dos Rego Barros, do conde da Boa Vista (Francisco do Rego Barros), descendente em linha direta de Jerônimo de Albuquerque e de Catarina de Albuquerque, de Maria do Espírito Santo Arcoverde, dos Albuquerque Melo, dos Cavalcanti e dos Albuquerque Maranhão"
"Leonardo, filho do coronel Manuel Cavalcanti de Albuquerque Barros e de Ursulina de Castro Sá Barreto - dos Sá Cavalcanti de Ipojuca - começou a aumentar seu patrimônio ao casar-se com dona Francisca Caraciola da Costa Gouveia, filha do coronel João Bento de Gouveia, gente de costados na Casa da Torre e nos primeiros donatários da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho Pereira e Dona Brites de Albuquerque. Este João Bento era marido de dona Rita Enedina da Costa, filha do português José da Costa, chegado ao Recife no final do século XVIII, em mil setecentos e tantos.
A família ainda hoje guarda a lenda deste Costa. Saiu de Portugal em circunstancias dramáticas e pitorescas. Perseguido por agentes de justiça, com ordens de arrastá-lo, vivo ou morto – perseguido no sentido literal da palavra - escapou em desabalada carreira pelas ruas de Lisboa, alcançando um navio que se preparava para partir, no qual se meteu com a roupa do corpo, sem saber para onde ia, até que os marinheiros o despejassem, afinal, nas praias do Recife. A versão mais corrente é a história de uma pedrada atirada a esmo, numa praça de Restelo, que teria atingido a cabeça de um cortesão ou de um clérigo poderoso, que mobilizou os beleguins no encalço do rapaz.
Bendita pedrada! Ao dar com os costados em Pernambuco, depois de arranjar-se em ocupações modestas, ajudado pela versão do que seria, para uns, um fidalgo rebelde, para outros o filho estróina de uma família rica de Portugal, o Costa, com a velha sagacidade mercantil dos portugueses, casou-se bem, foi adotado pela sociedade pernambucana, e acabou senhor de canaviais, tendo deixado aos descendentes um surpreendente inventário de engenhos de nomes sonoros. Era dono dos engenhos Cucaú, Catuama, Burarema, Oncinha, Conceição, Cabuçu, Limão Doce, Maçaranduba e outros.
O português deu à filha Rita, como presente ou dote de casamento, o valioso Engenho Mato Grosso, do qual a bisneta, Dona Francisquinha, nos manuscritos de seu diário de Sinhá de Engenho, recolhidos pela filha Suané (Lúcia de Barros Carvalho - Lúcia Nóbrega) - diz que era um "portentoso engenho imenso e lindo". Maior do que aqueles que ela mesmo recebeu também como dote, o Engenho Camevou (Onde nasceram Carlos e Antonio de Barros Carvalho), adquirido de um parente rico e solteirão, o capitão José Cardoso de Araújo, cunhado do Barão de Contendas, (Antônio Epaminondas de Barros Correia) e o engenho Santo Antonio – terras das reinações de infância e da adolescência dos oito filhos homens e da filha do Coronel Carvalhinho e dona Francisquinha.
Os senhores de engenho foram, muitas vezes, precursores das mais avançadas reformas políticas, econômicas e sociais de seu tempo. Entre eles se recrutaram os primeiros partidários da República, os mais apaixonados abolicionistas e os mais progressistas pioneiros da agroindústria de seu tempo. O avô materno dos Barros Carvalho, coronel Leonardo Orlando de Barros, é um fascinante exemplo desse tipo esclarecido de senhores de engenho. Era uma espécie de iluminista "à l'état sauvage" - para usar a expressão de Claudel sobre Rimbaud.
Antônio (Antonio de Barros Carvalho) era fascinado pelas histórias deste avô. Quando senador, deu uma vez uma entrevista ao jornalista Aderson Magalhães, do então prestigioso Correio da Manhã, interessado em documentar as experiências sociais e as reformas introduzidas pelo coronel Leonardo nas atividiades de seus engenhos pernambucanos. Uma delas merece ser contada aqui, até por seu caráter pitoresco.
O coronel era autodidata, mas apaixonado por todo tipo de leitura. Aprendeu francês sozinho, comprava livros franceses e revistas francesas de agricultura, junto com as publicações nacionais que mandava vir de São Paulo. Um dia leu numa dessas revistas que em São Paulo havia uma formiga terrível, a saúva, que de acordo com o que lera em periódicos franceses, tinha todas as características dos himetópteros que atacam e destroem os insetos malígnos que provocam a broca da cana. Não teve dúvidas: encomendou ao Departamento de Agricultura de São Paulo, ou a uma escola de Piracicaba, um carregamento de saúvas. O pedido insólito foi despachado, e os fornecedores, como a Alfândega do Recife, acreditaram que se tratava dum entomologista interessado em estudar as formigas ruivas.
O coronel recebeu a carga preciosa, entupiu de saúvas seus canaviais e ainda ofereceu as sobras a alguns amigos, progressistas como ele, nas experiências da lavoura. Resultado: matou as larvas da broca, mas em compensação introduziu em Pernambuco uma praga pior - a praga da saúva, da qual diria anos depois Monteiro Lobato que "ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil."
A mãe de Antônio (Antônio de Barros Carvalho) , dona Francisquinha, conta em seu Diário:
"Meu pai entendia de todas as artes. Poetava nas noites do engenho, e enchia cadernos de versos sentimentais, metrificados e rimados, no tom dos românticos da moda. Não tocava nenhum instrumento, mas sabia música e ensinava a qualquer um que quisesse aprender, como ensinou aos filhos piano, flauta e violão. Dançava muito bem - conta a filha - e nos adestrou na "quadrilha", na polka, na "valsa", "shots" e "lanceiros". Eram as danças de salão da época." Como agricultor - conta ainda a filha memorialista - passou anos lutando para obter a semente da cana nascida na flor da flecha.
O sistema utilizado era plantar o broto da cana. Aprendera em suas leituras, e em seu saber de experiências feito, que a cana brotada da semente não viria já atacada pelas pragas, como ocorria com o broto de socas, re-socas e contra-socas. A praga da broca da cana era um flagelo naquele tempo. Os senhores de engenho apelavam para os conhecimentos de Leonardo, mas o processo por ele adotado, até por ser pioneiro e inédito, era lento e aleatório. Muitos já duvidavam do êxito, e achavam que Leonardo estava perdendo tempo.
Mas o coronel era teimoso. Levou anos em suas experiências, até que um dia viu surgir o broto vivo de uma semente de cana. A alegria do pesquisador não foi menor do que a importância da descoberta para a salvação dos canaviais. A princípio, os pantadores vinham a seu engenho mais incrédulos do que esperançosos, e só se convenciam depois de ver o broto verde rompendo a semente minúscula. O coronel plantou imensos canaviais com sua cana limpa, e passou a produzir vários tipos da semente saudável, que distribuiu entre os colegas dos engenhos da várzea. Criou várias espécies de cana, classificando-as com nomes que escolhia.
A uma chamou de "Leonardo", dando-lhe seu próprio nome. A outra chamou de "Arcoverde", em homenagem a seu primo, Dr. Leonardo Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti. Criou a cana "Botocuda" e a cana "Melo", em homenagem a seu grande amigo, vizinho e compadre, o coronel Pihauhylino Gomes de Mello (a quem pertenceu o Engenho Camevou). E várias outras, cujos nomes a improvisada memorialista, já septuagenária, não conseguia recordar.
Ainda instruido por suas leituras especializadas, construiu a primeira casa de farinha em Pernambuco, capaz de processar trinta cuias por dia, o equivalente a cerca de um alqueire, ou trinta litros, com apenas dois empregados, o que reduzia em noventa por cento a necessidade da mão de obra. Em seu Engenho Camevou instalou a primeira restilaria do Estado, capaz de produzir os mais refinados tipos de álcool bidestilado.
Era republicano e abolicionista, amigo de Joaquim Nabuco, Marins Júnior, Silva Jardim e José do Patrocínio, com eles mantendo ativa correspondência em torno das atividades abolicionistas. Gozava de grande prestígio entre todos os senhores de engenho da região, e a imagem que todos tinham dele era de um homem exemplar por sua bravura, por seu cavalheirismo, pela firmeza de sua palavra e por seu sentimento de honra pessoal.
Nunca aceitou postos de governo. E do poder público valeu-se apenas uma única vez: o Barão de Lucena (Henrique Pereira de Lucena), seu parente próximo e seu grande amigo, por cuja causa lutara ativamente, ao eleger-se governador (* 05/11/1872 a 10/05/1875), insistia para que escolhesse a posição que quisesse em seu governo. Leonardo tinha um único desafeto em Pernambuco: um senhor de engenho vizinho à sua propriedade, que montara em suas terras uma quadrilha de ladrões de cavalo, e vivia depredando, a ferro e fogo, em surtidas criminosas, as reservas de animais dos outros proprietários.
Disse ao seu parente Barão de Lucena que não queria nada: apenas ser delegado de Bentevi por um dia, e que o chefe de polícia pusesse sob suas ordens, também por um dia, duzentos soldados. Invadiu o engenho do ladrão de cavalos, apreendeu todo o seu arsenal e acabou com o abigeato que intranquilizava a região. Conta-se que o chefe de bando então castigado, que era também senhor de engenho, dizia, até o fim da vida, que só de uma coisa tinha vergonha: de não ter merecido a amizade do coronel Leonardo.
O coronel que teve a coragem de importar a saúva não teve receio de correr outro risco: passou a ser um ativista na campanha da abolição. Quando ela chegou, já fazia mais de um ano que não havia escravos em suas propriedades. Recebeu pelo telégrafo a notícia da abolição, reuniu os antigos escravos que continuavam a viver no engenho, mandou que convidassem todos os outros dos engenhos em redor, chamou todos os senhores de engenho da redondeza e promoveu festa de arromba no terreiro da casa-grande. A filha memorialista (Francisca Gouveia de Barros), que participou da festa, conta a história:
"Meu pai reuniu os ex-escravos no terraço, comunicou-lhes que tinha sido decretada a abolição, e que não havia mais escravos no Brasil. Muita emoção, muitos vivas e palmas foram dados à princesa Isabel. Meu pai fez um discurso que comoveu a todos e disse-lhes que em regozijo realizassem uma festa, convidando seus colegas e os senhores seus amigos; ele daria o vinho e tudo quanto fosse necessário. Mandou matar os garrotes, os carneiros, os bodes, os porcos e as galinhas-d'angola para o banquete. Os ex-escravos engalanaram a casa do engenho, improvisaram-se mesa para mais de duzentos talheres, fizeram os convites.
Compareceram muitos escravos e amigos de meu pai. Comeram e beberam à vontade, dançaram um dia e uma noite, os brancos se misturaram com os negros, as sinhazinhas serviram a mesa, reinou muita alegria. Acabadas as comemorações, cada um tomou um novo rumo. Uns ficaram trabalhando para meu pai, recebendo seu salário; ele lhes deu uma posse de terra para plantarem cana ou o que quisessem."
Este é um breve retrato do avô de Antônio de Barros Carvalho, o senhor de engenho que ele mais admirava em sua família, filho e neto de Albuquerques e Cavalcantis, da árvore dos Rego Barros, do Conde da Boa Vista, descendente em linha direta de Jerônimo de Albuquerque e de Catarina de Albuquerque, de Maria do Espírito Santo Arcoverde, dos Albuquerque Melo, dos Cavalcanti e dos Albuquerque Maranhão. Mas era um aristocrata liberal e esclarecido, que tinha, como o primeiro Jerônimo de que descendia, um pé fincado nas casas nobres da província e do Império, e outro na taba do indio Arcoverde, na senzala dos africanos e nas ruas do Recife, a cidade rebelde por excelência.
O coronel Leonardo, pai de dona Francisquinha, foi também pai de um filho de alta reputação em Pernambuco, o dr. Gouveia de Barros (Manoel Gouveia de Barros), médico considerado e político bem sucedido, que seria Secretário de Estado e deputado federal.
Fonte:
Mourão, Gerardo Mello - Um Senador de Pernambuco - Breve Memória de Antonio de Barros Carvalho
Topbooks, 1999, 199 páginas. (págs. 26 a 31)
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
DOMÍNIO HOLANDES

Levantamento dos engenhos das capitanias de Pernambuco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande, feito durante o primeiro ano do domínio Holandes, conforme publicado no número 34 da Revista do Instituto Archeológico e Geográfico de Pernambuco em 1887. O documento, em Holandes, foi traduzido para o Portugues e consta dos arquivos de Haya. Preferimos usar a ortografia atual e organizar os dados para facilitar a leitura.
BREVE DISCURSO
Sobre o estado das quatro capitanias conquistadas
de Pernambuco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande
situadas na parte detentrional do Brasil
de Pernambuco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande
situadas na parte detentrional do Brasil
Quer saber mais sobre o dominio Holandes em Pernambuco? click aqui
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