segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Estudo para cordel: quando o sertão virou mar



Por Rangel Alves da Costa

Se engana, se engana seu moço, quem disser que trova é cordel, pois trova é mais pra repentista, cordel é pra menestrel. Poetas que estão na terra, poetas que estão no céu, imortais no seu barbante, por isso tiro o chapéu.

A trova é improvisada, rimando numa pisada, juntando o último verso com o que vem na estrada e se o trovador for fraco a história vira nada. Com o cordel é diferente, pois nada é de repente e tudo nasce completo, como a soleira e o batente.

Quando você for na feira, lá pras bandas do mercado, basta olhar de lado e ver o barbante esticado, preso em pegador o cordel tá estirado. Por perto tem um senhor, velho ou novo como for, mostrando o que escreveu, chamando pra ler quem não leu a história que então se deu.

Pode comprar é barato, não é brincadeira é fato, sobre o sertão há relato de tudo que aconteceu, da jibóia que cantava, do monte que estremeceu, da tarde que madrugava, da lua que se escondeu, do milagre da ceguinha e do morto que viveu.

Convide pra sua casa cordelistas de renome, encha sua estante de nome e sobrenome, gente como Cuíca de Santo Amaro, Silvino Pirauá, Leandro Gomes de Barros, Manoel D’Ameida Filho, Klevisson Viana, Chagas Batista, João Martins de Athayde, José Pacheco, José Camelo, Apolônio Alves, Francisco Sales Arêda, Arievaldo Viana, Rouxinol do Rinaré, sem esquecer dos outros, que no cordel fazem fé. E Patativa, aquele do Assaré?

Pois é, mas acabou a prosa pro café, agora é matutar sobre um assunto que há, sobre uma história dizendo que sertão vai virar mar. É coisa pra duvidar, mas um porém fui achar dizendo que a profecia aconteceu no dia-a-dia, bastando ver a agonia desse povo a lamentar que o sertão virou mar, mas um mar de coisa ruim, de tudo que podre há.

Quando o beato tristonho, disse num lamento medonho que o sertão vai virar mar e o mar virar sertão, não tava errado não, pois toda sua profecia é comprovada na razão. Mas na interpretação o homem desse sertão, mesmo acostumado com o chão, não entendeu a lição e deu outra conotação, achando que no falar está o beato a expressar que o seco vai alagar e o cheio vai secar.

O que o beato disse, e isso não é crendice, é que o sertão vai mudar. E mudou tanto e vai mudar que basta o cabra olhar o seu redor como está, tudo muito esquisito, nada mais se vê bonito, até o povo bendito está mais para pecar. Respeito não tem mais não, irmão desconhece irmão, família é pura ilusão nessa terra que hoje enterra toda a história do sertão.

E se o cabra olhar não dá para acreditar como esse sertão virou mar, mar de lama, da pior fama, de mulher de cama em cama e do marido a dizer que a mulher ainda ama. Mar de água imunda, onde o que mais abunda é a droga em cada esquina e a juventude vagabunda. Mar de água impura, com roubo por todo lado, envolvendo uma mistura de político e prefeitura.

E o sertão virou mar, não pela lição do beato, mas pelo que lá está no seu mais triste retrato. É um mar de esquecimento que a honra é o cimento e do homem o seu sustento. Mar que não molha mais, não molha a vida e nem a paz, não traz esperança, nada ele traz. Mar de causar temor, pois cada dia é o pavor que a violência seja da terra o seu motor, sem mais sossego, só o terror.

Sertão virou mar e mar de mentira, onde a verdade não mais se admira, ninguém mais crê nem no caipira, misturado que está com quem contra si conspira. E a onda que veio, levou tudo da frente, levou tudo do meio, destruindo tudo, sem o menor receio, que não reste ali nem mais o esteio. Parece o fim dos tempos naquele mundão sem fim, nascido para ser bom, destruído como ruim, sem que o próprio sertanejo se ajude um tiquinho assim.

O beato tem razão, do jeito que a coisa vai não há outra solução, o mar vira tsunami e arrasa com o sertão.

Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Novo livro de Cobra Cordelista



Alma Sertaneja é o novo livro do poeta, contador de causos e escritor Cobra Cordelista, para adquirir seu novo trabalho, basta entrar em contato com o mesmo pelo e-mail: cobracordelista@hotmail.com o livro custa R$20,0 (vinte Reais) + despesas postais, para saber mais entre em contato com o autor por seu e-mail.

ASCENÇO CARNEIRO GONÇALVES FERREIRA


Imortalizado como Ascenço Ferreira, o mais renomado poeta pernambucano - foi grande, não só em estatura física, com quase dois metros, mas também em sua prosa.
Falava a língua do povo, numa cadência exuberante e apaixonada, contando as histórias dos nosssos engenhos, dos canaviais, da vida quotidiana e dos anseios do seu povo.

Com o seu famoso chapéu de palha, espalhava pelo Recife a fumaça dos seus charutões, estremecendo as pontes e os prédios com a sua voz profunda e convincente. Declamava pelas ruas do Recife os seus versos, a quem quizesse ouví-los, e entre o povo firmou sua fama e sua glória. Não era homem de palácios nem gabinetes, porque sua essência era o povo.

Tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, e de tomar-lhe a benção, apesar de temeroso da sua imponente figura. Nosso primeiro encontro foi por volta de 1955, quando eu eu tinha apenas 10 anos e minha mãe -- Graziella Marroquim do Nascimento -- me levou para visitar Maria Stella, na sua casa em Campo Grande, Recife. Ascenço e Maria Stella haviam sido muito amigos de Adalberto Afonso de Almeida Marroquim, irmão da minha avó materna, Adalgisa Amanda de Almeida Marroquim - ambos naturais de Campos Frios, Água Preta e filhos de Francisco Corrêa de Almeida Marroquim e Sebastiana Maria da Conceição Areda.

Na época não sabia, mas ele já era separado de Maria Stella de Barros Griz, sobrinha de minha avó paterna, Francisca Gouveia de Barros. Foram amigos por toda a vida, apesar da separação. A casa de Maria Stella era quase vizinha à de seu irmão, também poeta, Jayme de Barros Griz (foto ao lado) - outro vulto do "ciclo da cana de açucar" - poeta dos engenhos e dos canaviais e dono do engenho Liberdade, em Palmares.

Anos mais tarde - já na adolescência - é que eu o conheceria mais profundamente, mas através de sua obra. Estimulado pelo saudoso Irmão Cláudio (Marista, também poeta e grande amigo de Ascenço e de Jayme Griz), declamei seus poemas, mergulhando meu ser na exuberância dos engenhos, no cheiro da cana moída e no verde plenipotente dos canaviais. Com ele aprendi o rítmo e a simplicidade da narração poética e a ele devo o amor que tenho à poesia, à minha terra e às minhas raìzes.

Relembro outros encontros casuais no início da década de 1960, na lanchonete Savoy, da Avenida Gurararapes e no restaurante Leite, em frente ao cinema Moderno, pontos habituais dele e de meu pai, Carlos de Barros Carvalho (foto ao lado).

Além de serem primos, por via do casamento de Ascenço com Maria Stella de Barros Griz -- prima de meu pai, foram amigos de infância, juntamente com os oito outros irmãos Barros Carvalho. Gostavam de um chopinho bem gelado, uma boa aguardente e os pratos fastidiosos do cardápio pernambucano - rabada, sarapatel, cozido, e carne de sol - tudo com farinha de mandioca - como ilustra Semira Adler Vainsencher, pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco:

"Ascenço tinha quase 2m de altura, usava um chapéu de palha na cabeça, adorava comer e fumava sempre um grande charuto. Um de seus amigos lembrava que, certa tarde, depois de tomar banho no rio Passarinho, o guloso poeta almoçou três pratos fundos de sarapatel, com farinha de mandioca e pimenta malagueta, bebeu um litro de aguardente com mel de abelha, e, de sobremesa, ainda comeu a metade de uma jaca mole. Quando chegara em casa, à noite, disse à esposa que estava sem fome e, por isso, se contentava com um prato de pirão de leite e um pedaço de carne de sol".

A amizade de Ascenço com o meu tio Antônio de Barros Carvalho era mais intelectual e política, mas sempre incluindo os nossos pratos tradicionais. Em 1917 ele dois e outros intelectuais fundaram a sociedade HORA LITERÁRIA DE PALMARES. Gerardo Mello Mourão, no seu livro "Um Senador de Pernambuco - Breve Memória de Antônio de Barros Carvalho" - 1999, Topbooks Editora, Rio de Janeiro - páginas 97 e 98 -- conta que Antônio foi um dos que introduziram Ascenço no âmbito sociai e político de Pernambuco e do Brasil - assim conta o autor, referindo-se ao primeiro encontro do então deputado Barros Carvalho com Getúlio Vargas:


"...Getúlio tornou logo informal e cordial o encontro. Sua primeira e surpreendente pergunta foi: "O senhor, que é pernambucano, conhece pessoalmente o poeta Ascenço Ferreira"? "É meu parente, -- informou Barros -- casado com minha prima, a bela Stela Griz". "Pois traga-o aqui, que gosto muito de vê-lo". E passou a recitar de cor o famoso poema de Ascenço sobre as bravatas do gaúcho, que terminava com o verso: "Pra quê? -- Pra nada". Tres ou quatro vezes Barros levou o gigantesco Ascenço ao presidente, que sempre lhe pedia para recitar o poema do gaúcho. O poeta o repetia em sua voz ondulada e em seu cultivado sotaque nordestino, e Getúlio dava sempre uma gargalhada no final". E continua o autor:.



"O poeta Ascenço Ferreira, filho da professora dona Marocas, era companhia permanente de Barros, desde os dias da infância em Palmares. Pouca gente sabe que o nome de registro de Ascenço era Aníbal Torres. Mas foi Ascenço que ele se chamou, desde menino, quando trabalhava como balconista na loja palmarense de seu padrinho Joaquim Ribeiro.

Esta amizade se tornaria íntima e familiar, depois que Barros o apresentou a sua prima Stela Griz, Maria Stela de Barros Griz, filha do poeta Fernando Griz, com quem se casou. Foi ainda Barros que introduziu o poeta de Cana caiana em alguns dos melhores círculos do Recife, levando-a a amigos como seu tio, deputado Gouveia de Barros, Luís da Câmara Cascudo, Manoel Bandeira e Gilberto Freyre. Este último o faria participar do Congresso Afro-Brasileiro, realizado no Recife em 1934.

Depois da edição de Cana caiana, de 1939, custeada por Edgard Teixeira Leite, Ascenço teve suas belas edições lançadas por José Olympio, no Rio, por interferência de Barros, com muitas páginas ilustradas por sua irmã, Lúcia de Barros Carvalho, ou Lúcia Nóbrega, que tomou o nome artístico de "Suané".

Alguns poemas de Ascenço registram a aproximação que tinha à família Barros Carvalho. Um deles,intitulado "Tradição", foi baseado em história contada a Ascenço pelo Padre Nelson de Barros Carvalho, referindo-se ao meu avô, o coronel Carvalhinho (José de Carvalho e Albuquerque, casado com D. Francisquinha (Francisca Gouveia de Barros) -- foto abaixo, tia materna de Maria Stella de Barros Griz:
Foto: Francisquinha e Carvalhinho - Bodas de Diamante


"Tradição"
Ascenço Ferreira

"Terraço da Casa-Grande de manhãzinha
fartura espetaculosa dos coronéis:
-- Ô Zé-estribeiro! Zé -- estribeiro!
-- Inhôôr!
-- Quantos litros de leite deu a vaca Cumbuca?
-- 25 seu Curuné!
-- E a vaca Malhada?
-- 27 seu Curuné!
-- E a vaca Pedrês?
-- 35 seu Curuné!
-- Sóo? Diabo! os meninos hoje não tem o qui mamar!"

sábado, 8 de janeiro de 2011

AMÁLIA GUIMARÃES


Amália, a pernambucana Amália


Por Gilberto Freyre

(Para os Diários Associados)
Matéria publicada no Diário de Pernambuco
Secção Opinião, em 6 de Maio de 1973

Não: não é privilégio de Pernambuco vir contribuindo para dar ao Brasil algumas das mulheres mais ilustres pela personalidade, pela beleza, pela graça, pelo espírito e até pela coragem; que o diga o feito heróico das bravas sinhás de Tejucupapo. Tanto não é só Pernambuco que vem produzindo mulheres superiores que o pernambucaníssimo Joaquim Nabuco, depois de um idílio célebre com iaiázinha fluminense, casou com outra fluminense fidalga e ilustre, sem nunca ter tido flirt sequer com pernambucana; a não ser, segundo certa tradição, uma inglesa das chamadas de Apipucos.

Mas quem, senão uma pernambucana, famosa pela beleza -- uma Alves da Silva -- inspirou a Maciel Monteiro o "formosa qual pincel em tela fina, debuxar jamais pôde ou nunca ousar?" Quem senão uma pernambucana, jovem e morena, mereceu de Castro Alves o seu primeiro amor de poeta talvez mais poeta pelos seus líricos que pela sua ardente retórica política?

Quem senão uma pernambucana foi esposa de diplomata brasileiro que mais se distinguiu na Europa e nas Américas pela fidalguia do seu porte de filha de senhor de engenho brasileiro a quem uma governante inglesa acrescentara dignidade Vitoriana, sendo ela menina de casa-grande de Vitória: Flora Cavalcanti de Oliveira Lima? Quem, senão a tambem pernambucana Dona Olegarinha soube juntar as façanhas cívicas do popularíssimo esposo à doçura e à abnegação de uma abolicionista por nenhuma outra exercida no Brasil, em serviços à grande causa?

Pernambuco vem sendo tão opulento de mulheres de valor como de homens superiores. E há uma graça de mulher brasileira que só se encontra na pernambucana como há outra própria só de baianas e, ainda outra, de gaúchas, sem nos esquecermos do encanto, já internacionalmente célebre, da carioca ou da paulista.

Ao que se pretende chegar com este comentário ao valor da pernambucana? À recordação de recente perda, para Pernambuco, de uma figura de mulher em cuja personalidade se juntavam as mais fortes características da gente de sua terra. Ninguem mais brasileira. Mas dentro de sua brasileiridade, ninguem que, no Rio, onde residia há longos anos, se conservasse mais fiel às suas origens. Mais pernambucanamente mestra da culinária tradicional de Pernambuco. Mais vibrante de civismo. Mais leitora de autores novos sem deixar de reler os antigos. Mais saudosa dos sobrados do Recife, dos azulejos de Olinda, dos canaviais de Jaboatão, das goiabeiras dos fundos de sítios ou simplesmente de quintais recifenses.

Refiro-me a Amália Guimarães de Barros Carvalho. Era senhorial sem deixar de ser simples. Juntava ao gosto pelas pratas, pelas louças e pelos móveis fidalgos a sensibilidade às artes populares mais rústicas; inclusive a dos doces plebeus vendidos outrora -nos dias de sua meninice - em taboleiros. Explica-se que de sua união com o no fim da vida Senador Antonio de Barros Carvalho tivesse resultado uma artista do extraordinário valor de Rosa Maria*. Complementavam-se, nos últimos anos, a mãe e a filha.

Inclusive a filha ilustrando, de modo admirável, o livro que a mãe deixa felizmente pronto para publicação, de receitas de quitutes tradicionais de sua terra. Livro que, agora, precisa de sair quanto antes, com as suas ilustrações a cores inspiradas pela autora à arte da filha e colaboradora.

* Rosa Maria de Barros Carvalho -- filha única de Antonio e Amália, ilustrou várias obras de Gilberto Freyre e de outros famosos personagens da literatura brasileira.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Martelo meu pensar



Martelo meu pensar


Martelo;
Centauro;
Sentado o vento sopra longe do acaso das virgens que sonham por quem nunca há de chegar.

Martelo;
Asfalto;
Vem vento descalço, sem roupas. Desnudo! Sem culpa da culpa que me foi doada em forma de peste e demência do que há por lá.

Martelo;
Tempo;
Asilo;
Pecado, combinação de cofre arrombado, sem nada para ver de fato valioso, pois vida se esvai com ou sem rimas de virgens que sonham pecados entre seus rins.

Pecados no asfalto! Loucos de pedra que rasgam dinheiro e comem merda como se fossem deuses dessa vida morta moderna.

Martelo quebrado;
Cabeça quebrada;
Escândalo calado;
Martelo minha vida, sem tempo, sem vida de fato. O tédio, a impotência da morte é meu martelo, que martelo meu pensar.

Marcos Henrique.

Marcos Henrique é escritor e poeta, reside em Jaboatão dos Guararapes-PE.
Seu blog:http://poemasdecaverna.blogspot.com/

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Conheça Laudemiro - O Lampião moderno da Paraíba

É no sertão paraibano, mais precisamente na cidade de São João do Rio do Peixe (485km de João Pessoa) que vive Laudemiro, o Lampião do século XXI. Bem diferente do verdadeiro, o Lampião da Paraíba é um sujeito tranquilo, mas também faz sucesso por onde passa. Conheça um pouco mais dessa história.