terça-feira, 11 de outubro de 2011

Gato Félix: 100 anos de esquecimento de um caricaturista

Félix de Albuquerque, o Gato Félix, nasceu em 1911, em Chã de Alegria, município da Zona da Mata Norte de Pernambuco. De uma família de humildes trabalhadores rurais, em 1925, portanto aos 14 anos de idade, Félix mudou-se para o Recife onde, inicialmente, trabalhou como empregado doméstico na residência de uma senhora da sociedade: “era uma casa na Rua da Imperatriz nº 36, no segundo andar, onde tinha um piano que era tocado por três mocinhas”, diria a 02de fevereiro de 1975, numa entrevista ao Jornal da Cidade, do Recife.

Naquela época, ou seja, em 1925, o garoto Félix de Albuquerque já gostava de desenhar, tarefa a que dedicava todo o tempo em que não estava ocupado com os afazeres domésticos. Um dia, a patroa viu os rabiscos do seu empregado e o incentivou a estudar. Através do maestro e compositor Nelson Ferreira, que frequentava a casa, ela conseguiu matricular Félix num curso de desenho do Liceu de Artes e Ofícios, a então mais importante escola profissionalizante do Recife. Mas, avesso aos estudos, Félix só frequentou o curso por apenas três dias.

Publicado pelo jornal A Pilhéria, Recife, 05/10/1929.


Além de deixar o Liceu de Artes e Ofícios, Félix de Albuquerque também saiu da casa onde era empregado doméstico e foi trabalhar como gazeteiro, “porque vender jornal era uma profissão muito mais divertida”. Assim, aos 15 anos de idade, Félix teve seus primeiros contatos com o mundo da imprensa, já alimentando o sonho de um dia ter os seus desenhos publicados nos jornais. E, assim aconteceu: de gazeteiro a ilustrador (cartunista/caricaturista) seria “um pulo”, pois aos 16 anos de idade Félix veria suas primeiras caricaturas publicadas:

- Publiquei meus dois primeiros desenhos aos 16 anos de idade. Uma caricatura de um médico chamado Edgard Altinho e a outra era uma caricatura do Ministro Oliveira Lima. Foi a maior alegria da minha vida porque naquele tempo os jornais do Recife tinham muitos cartunistas famosos, muita gente importante - diria Gato Félix na já citada entrevista ao Jornal da Cidade. Ele acrescentava:

- Me lembro de quase todos os cartunistas do Recife: Beroaldo Melo; Armando Santos que depois virou coisa muito alta e só fazia pintura; eu vi a primeira caricatura de Lula Cardoso Ayres, que foi a do médico Simões Barbosa; J. Ranulpho foi outro grande caricaturista, aprendi muito com ele, lá na casa dele na Rua da Praia, onde vi o seu filho Carlos Ranulpho (hoje marchand de arte famoso) ainda pequeno; Nestor Silva morreu na miséria, lá no Alto José do Pinho... Ainda tinha Vitoriano, Valdemar Vilares, Zezé e outros que não lembro agora...

A partir daquele 1927, Gato Félix teve uma bem sucedida carreira de cartunista, atuando em praticamente todos os importantes jornais recifenses: A Noite, Jornal do Recife, Jornal Pequeno, Diário da Manhã, A Rua, A Notícia, O Prego, A Revista, A Pilhéria, Folha da Manhã, Diário da Noite, Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio, entre outros. Além do sucesso, seus desenhos também trouxeram problemas. Em 1930, por exemplo, foi preso várias vezes, a maioria delas por conta de caricaturas do Inspetor de Polícia Ramos de Freitas, “um sujeito beiçudo, fácil de caricaturar”.

Jornalista Sócrates Times de Carvalho, contemporâneo de Gato Félix


No início dos anos 1970, Gato Félix foi esquecido pelos jornais do Recife. Mas, enquanto atuou como cartunista, fez amizade com grandes nomes da cultura pernambucana: “Fiz muitos amigos no meio cultural. Conheci Gilberto Freyre quando ele era secretário de redação de A Província. Fiz amizade com Mauro Mota, Eugênio Coimbra, Lula Cardoso Ayres...Com Mário Melo cheguei a fazer um suplemento carnavalesco para o Jornal do Commercio em 1936... Hoje, alguns desses nem falam comigo ou pensam que já morri” (Jornal da Cidade, 02/02/1975).

Capiba e Antônio Farias

Os últimos desenhos de Gato Félix foram publicados pelo semanário Jornal da Cidade, entre 1974/75, depois que o jornalista Ivan Maurício localizou o cartunista morando numa modesta casa do Beco do Rosário, no bairro recifense de Afogados, e o trouxe de volta à imprensa. Antes de morrer, pobre, no final da década de 1970, Gato Félix passa os dias num restaurante no bairro de Santo Amaro, Recife, onde comia e bebia pagando as contas com caricaturas que fazia dos outros clientes e que o proprietário dependurava pelas paredes do estabelecimento.

Segundo o próprio cartunista, o apelido Gato Félix surgiu numa redação de jornal, por lhe acharem parecido com o gato do mais famoso desenho animado dos anos 1920.

Jornal da Cidade, 1975

Nenhum comentário:

Postar um comentário